“O artista não pode ser consumidor, o artista deve ser criador”

Há possibilidade de se internacionalizar a música gospel angolana, acredita o músico Rui Last Man e observa que, para tal acontecer, é necessário deixar de ver a música gospel como propriedade dos cristãos e permitir que pessoas com conhecimento trabalhem neste segmento. 

Fazer e promover mais as “coisas” nacionais, é algo que deve ser feito, sublinhou o artista, que apontou como exemplo, o caso da música congolesa, muito consumida em angola.

Nesta segunda parte da entrevista que concedeu ao portal Arautos da Fé, disse que apesar dos desafios, 2019 poderá ser ano de oportunidades para quem tiver inteligência.

Sobre a promiscuidade que se verifica no meio gospel, deixou conselhos a classe artística.

 

 

2019 Pode ser um ano bom para os artistas gospel?

2019 Está e vai ser um ano muito difícil para os artistas porque estamos numa outra época onde a imagem fala. Sempre falou, mas a necessidade de aparecer tem sido maior que a necessidade de fazer bem. E temos muitos artistas agora e com uma facilidade de mostrar os seu trabalho. Então, vai ser um ano de muitos desafios. Foi em 2018 e continuará a ser em 2019. Muita gente aí querer mostrar o seu trabalho e ao mesmo tempo vai ser difícil por causa das questões financeiras. Mas para quem tiver calma e sabedoria, será também um ano de muita oportunidade. As pessoas terão oportunidade, quem for inteligente, de formar boas parcerias, de fazer coisas com calma mas bem feitas, de se juntar a boas estruturas, a boas organizações porque todo mundo aí esta a procura de alguém para fazer algo. Neste sentido considero que será um ano de muitos desafios, mas também de muitas oportunidades.

Rui Las Man.

Rui Las Man.

Na música secular para determinada pessoa ascender tem que ter compromisso com A ou B, também, vai se murmurando em alguns lugares que está a ser notada no meio evangélico. Como responsável de uma produtora que conselho dá as pessoas que têm um talento e sonham estar na ribalta?

Esse é um assunto muito delicado e penso que já vem a acontecendo faz tempo. Hoje há muita informação que chega à tona por causa da facilidade da comunicação que temos. Penso que é necessário termos cuidado e aproveito, uma das questões que colocou anteriormente temas a discutir, a composição é um dos temas que devemos discutir. A tendência de seguir o que está a bater no secular, quer seja a forma de cantar, de vestir, de estar, videoclipes e tal, devemos ter cuidado com isso. Particularmente não assisto muitos videoclipes. Não é porque condeno, crítico, não. Tenho acompanhado alguns tantos, mas do que se faz actualmente, esta é uma decisão própria, não influenciada por nada nem ninguém, mas para exactamente não influenciar a minha composição e para que as minhas ideias sejam originais.

Quando as vezes, espreito um ou outro, mas o que notei é que quanto mais assistia um videoclipe, eu queria fazer aquilo, queria fazer daquela forma. Hoje com uma certa maturidade já consigo filtrar algumas coisas. É necessário que tenhamos um certo cuidado quando abordamos alguém e sobretudo uma irmã para poder trabalhar connosco, para poder fazer o coro, sei lá, participar num trabalho. É necessário ter um certo cuidado com essa relação que se cria. Porque se nós não tivermos cuidado, vai começar depois a ser a mesma coisa que acontece fora. Tu até podes começar com uma suposta boa intenção mas, o problema do show business está mesmo ali. Tudo é vivido a flor da pele. São emoção vividas a flor da pele. É uau passou na televisão, é uau canta bem, é uau…  as coisas não são vistas na profundidade, então começas um relacionamento, terminas. Depois começas outro e depois começa a ser essa brincadeira de propor: vou te ajudar  e na verdade não é ajuda, sentiu-se atraído. É necessário termos muito cuidado. O meu conselho para os manos, amigos, jovens, colegas de trabalho: que tenhamos muito cuidado quanto a este assunto.

 

A qualidade de maior parte dos vídeos que passam na internet, porque muitos não passam na televisão, ainda é muito reduzida o que indica também que os músicos não investem muito na qualidade. Esse é um problema que vamos continuar a enfrentar nós próximos tempos?

Antes não tínhamos vídeos de qualidade não é só a questão custos, mas o material que se tinha. Mas o que ficou na mente de muitos artistas é que a qualidade tem um custo elevado. Essa é uma verdade: qualidade tem custo elevado. Mas existem níveis, existem formas, existem estratégias. Por isso é que nós temos passado vários conhecimentos de como as pessoas podem atingir os seus objectivos.

Quando trabalho com algum artista, eu não pego só e começo a gravar, começo a fazer… Ensino também a planificar. Ensino como melhorar. Hoje já temos a possibilidade de fazer trabalhos de qualidade. A questão muitas vezes está na direcção. Digo sempre: devemos aprender com os kuduristas. Eles foram fazendo até atingir, até ganhar o nível que ganharam, a popularidade que ganharam e o respeito ou estatuto que ganharam. Foram fazendo. Só que, existem níveis. Não podes pegar uma música muito simples, ou um trabalho muito simples em termos de edição, de filmagem e querer fazer uma super produção. Se não tiveres capacidade financeira para atingir a ideia, vai se compreender que tens uma na ideia mas não tens a capacidade financeira. Logo, o teu trabalho fica sem qualidade.

Mas pegares num trabalho básico ou médio e fazeres um vídeo num mesmo nível, com cenário, com um story bem desenhado, consegue-se ter equilíbrio. Particularmente sempre tive a dificuldade de, mesmo gravar áudios quanto vídeos, porque sempre fui muito exigente com as coisas que faço e isso sempre me deixou com um pé atrás em relação a fazer vídeos ou áudio. Mas hoje compreendo que devemos fazer. Devemos fazer e ir melhorando. Devemos tirar o primeiro, tirar o segundo, tirar o terceiro e ir melhorando porque só assim é que vamos conseguir saber e de facto chegar a um bom produto. A questão também prende-se em procurar pessoas certas para ajudar a obter o melhor resultado.

 

Noto que a música gospel está muito ocidentalizada. Ela não pode ser feita com os ritmos africanos, com os ritmos angolanos ou há um desconhecimento da parte dos músicos angolanos de que existe esta cultura angolana?

Mais uma vez vou voltar a frase que falei no início quando dizia que, como empresário devemos nos saber posicionar e se somos os melhores – somos os melhores. Se somos os primeiros – somos os primeiros. Se estamos a fazer – estamos a fazer. Isso para dizer o quê? Fazer o gospel numa vertente mais angolanizada, para mim nunca foi novidade. Porque a banda de onde venho, a Banda TDC sempre carregou a música gospel mais para os estilos que se ouviam e se faziam em Angola. Desde Semba, Kilapanga, Afro e até mesmo Rap feito de forma angolana ou por angolanos. Eu defendo que devemos fazer o que é nosso para dar a conhecer aos outros. Porque se tu pegas uma música gospel, ainda que seja Rap ou Reggae que é o que faço e não colocar lá nada do que é meu, para essa minha música ser internacionalizada, eu estarei a competir com os que já fazem, com a origem. É muito mais difícil. Eu tenho que colocar alguma coisa minha que vai soar diferente. Que vai soar novidade. É isso que nós devemos fazer. Pegar o que se ouve fora e tudo mais… nós temos em Angola vários estilos que devemos começar a cantar. E se cantarmos nos nossos estilos, vamos criar uma coisa que é, aquilo que se pensa: é africano automaticamente diabólico. Não. Nós podemos fazer gospel no estilo Cianda. Devemos ir lá para Cabinda, tem vários estilos. Aqui em Luanda tem vários estilos que podemos pegar.

Passei dois anos na Lunda e achei curioso que lá o Cianda toca e bate mais do que o Kuduro. Alguém que nasceu ali, obviamente vai ter que fazer a música naquele estilo. Penso que devemos promover e fazer coisas mais nacionais. Hoje por exemplo, noto que se consome muita música congolesa. Há alguns anos estávamos com as músicas brasileiras e antes disso estávamos também com as congolesas. Começamos com as congolesas mas por causa daquele tabú, questões políticas, a abraçou-se mais o brasileiro e depois foi-se para o americano e agora voltou-se para o congolês.

 

Mas isso não será resultado da presença de muitos congoleses aqui?

Pode ser resultado da presença de muitos congoleses aqui como pode ser resultado do que eles estão a fazer e nós estamos a receber. Porque quando nós consumimos muita música brasileira não tínhamos muitos brasileiros em Angola. Mas era o que eles estavam a fazer e estava a chegar para nós.

Quando é que vai se dar o inverso? Agora se eu pegar e fazer um Seben como um “Fanda Na Yo” tenho de perceber como é que aquilo funciona para ir concorrer com eles que fazem. Mas se eu pegar e fazer o nosso Kilapanga eles já vão receber aquilo porque não sabem como se faz. Temos de estar atentos nesse sentido. Sou daquelas pessoas que defende que o artista não pode ser consumidor, o artista deve ser criador.

 

Do jeito que as coisas estão actualmente há possibilidade de a música gospel angolana se internacionalizar?

Há possibilidade. Primeiro, os artistas gospel devem deixar de ver a música gospel como propriedade do cristão. Isso é um erro. Devem deixar de olhar a música gospel como se só nós a podemos fazer. Isso é um erro. Porquê? O cristão está ainda muito preso a questões doutrinárias. E doutrina dificulta avançar. A música é música para todos. Devemos fazê-la e deixar que outros façam e assim vai ganhar outros mercados. Se nós olharmos para a música gospel como sendo também uma componente cultural angolana e tratarmos dela como uma componente cultural angolana, olharmos o Semba e o Kizomba que estão a se internacionalizar, olharmos o Houses, o Kuduro que está a se internacionalizar e começarmos a pensar: ok, esta música é angolana, o estilo é angolano, que esta-se a ouvir fora, então posso pegar no meu Zouki ou no meu Semba, fazê-lo num padrão de Semba como tal e fazer com que isso seja ouvido fora. Então vamos ver que a possibilidade do gospel se internacionalizar está lá, porque é música angolana que está a se internacionalizar.

Quando as pessoas ouvem música angolana lá, não perguntam se essa música foi feita por um cristão ou não. Ele sabe que o Semba é angolano.

 

Mas ali não há um risco de se desvirtuar a mensagem? Porque se a música evangélica for feita  por alguém que não conhece o Evangelho, não vai correr o risco de cantar alguma coisa que não tem fundamento bíblico?

Esse é o risco que nós temos que correr.

 

Ou estão a faltar compositores evangélicos que vão fornecer?

Não. Por isso é que eu disse que nós temos que deixar de pensar que isso é propriedade nossa. Isso é um risco que temos de correr. É um risco que qualquer cultura correu. Se formos a olhar, hoje estamos a consumir música congolesa e música brasileira. Tem artistas que cantaram músicas gospel que nós ouvimos e cantamos e que não eram músicos gospel como tal. Não eram, mas fizeram. A música que todo mundo canta “Happy Day” e tudo mais, não se internacionalizou nas vozes de artistas gospel, oficialmente falando. Internacionalizou-se noutras vozes. É isso que estou a querer me referir. É preciso deixar que as pessoas cantem. Nós ouvimos Roberto Carlos e Roberto Carlos já cantou várias músicas com mensagens, vamos assim dizer, evangélicas. Umas! Outras com mensagens mais voltadas se calhar para um público católico. Então, nós temos várias músicas gospel que se internacionalizar mas, não na voz de artistas gospel.

Penso que devemos correr esse risco e correr esse risco vai nos obrigar a trabalhar. Por exemplo, o que me fez mudar a forma de fazer Rap e querer gravar mais Rap em outros discos, foi exactamente quando eu vi no disco “Já é hora” do Dodó Miranda a participação do Father Mak. Eu disse: ok, muito bom, cantou muito bem.

Enquanto não aparecer um rapper gospel a dizer estou aqui, eu faço, nunca vamos receber convites. Alguém que não faz Rap gospel vai sempre receber convites para fazer (participação) num disco de Rap gospel. Mas foi ele que eu ouvi, foi ele que o artista chamou. É dali que comecei a ver que devemos fazer e devemos deixar também, devemos permitir, se calhar é melhor dizer aceita que os outros estão a fazer. Porque não é uma propriedade nossa. Nós não temos direitos sobre isso.

 

Isso requer um amplo debate!

De facto requer um amplo debate. Se nós formos, são coisas que fui aprendendo quando comecei a legalizar a empresa… Quando comecei a legalizar a empresa, primeiro, nós não temos no nosso país um enquadramento para produtoras de evento. Não existe. A empresa é classificada como prestadora de serviços e vai ser regida pelas leis de prestação de serviço. E depois vais para a cultura… Quando vais para a cultura, pedes um certificado de produção de eventos. Não pedes um certificado de produção de eventos gospel. Quando comecei a passar por esses processos percebi que, gospel é só um segmento, mas o tratamento é o mesmo. Claro que quando vais falar com o homem que está a frente, por saber que é gospel, por saber a realidade te trata de forma diferente. Mas quando te passar para a lei, quando te passar para as cobranças, quando te passar para os impostos, quando te passar para a fiscalização vai te tratar de igual modo. Vai te pedir o relatório, vai te pedir tudo.

Quando eu comecei a ver isso, comecei a perceber que devemos ser o mais profissionais possível naquilo que fazemos. Tratar as coisas como elas são. Por isso é que admiramos artistas que não são gospel a cantarem música gospel ou artistas que não são gospel a cantar em shows de artistas gospel Criamos uma confusão, criamos alarido, não pode! Isso é apenas o que está na nossa mente. Isso apenas o que nós achamos, mas não tem nada que está escrito que é proibido. Procura, quer na Bíblia, quer na lei, não há nada.

 

A Associação dos Músicos Cristãos está à altura de corresponder os desafios do presente momento?

Eu creio que sim. Temos conversado com o responsável ao nível de Luanda e há algumas coisas que estamos a ver como podemos apoiar, ajudar. Eu penso que sim, a partir do momento em que a associação assumir o papel de associação e os músicos deixarem de pensar que a associação é uma produtora. Porque os músicos só recorrem a associação para apoios de produzir o seu show e tudo mais. Os músicos se calhar deviam estar preocupados em regularizar as suas quotas, deveriam estar preocupados também em fazer…, porquê? Digo isto porque fiz parte da criação da associação. Hoje, temos de gerações diferentes. Nós tínhamos uma geração que doava. Agora temos uma geração que quer que se lhe dê. Essa é uma grande diferença.

No princípio, a associação foi criada por pessoas que se doaram. Doaram o seu tempo, doaram o seu instrumento, doaram o seu conhecimento para a coisa chegar até ali. Hoje não. Hoje só temos pessoas que querem receber. É importante que continuemos a doar para podermos receber. É importante que continuemos a dizer onde é que ela está a falhar, o que posso fazer. Se não estiver a se rever, se não for bem-vindo, se não for aceite ok, mas tentou e não só ficar aí de longe a falar. Tem as suas falhas tem, vamos deixar que eles resolvam os seus problemas, que as coisas em que as pessoas não estão a se rever possam ser melhoradas que é para as pessoas também… porque também tem esse lado, a associação precisa mostrar para as pessoas que é uma organização que está aberta para os artistas e tratar dos assuntos dos artistas. Então deve sempre comunicar que assuntos ela trata e que assuntos ela não trata. Mas, no meu ponto de vista está à altura de atender a demanda ou aquilo que são os problemas ou as necessidades actuais dos artistas gospel.

 

O quê que o público pode esperar da Sandjuka e de Rui Last Man?

Como disse, 2019 estamos com uma agenda bem mais tranquila mas impactante. Vamos trabalhar, o público pode esperar muito conhecimento que estamos dispostos a partilhar. Vem aí uma bateria de formações, workshops, encontros, colóquios.

Vêm também concertos, obviamente. Vamos começar com Nádia Mayembe e depois vamos ir anunciando outros. Também vêm discos de Last Man. Pode-se já esperar de Last Man, está a trabalhar neste sentido…  Atendendo que Last Man é um artista que não lança com certa regularidade ou pelo menos com intervalos de tempo muito curtos, geralmente faço trabalhos e depois de um intervalo muito longo é que lanço outros, vamos ter alguma coisa este ano que vai servir para alimentar o povo, o público amante da música gospel, amante de arte gospel, amante de boa música.

 

Leia a primeira parte da entrevista: “A SANDJUKA MUDOU O CONCEITO DE SONORIZAÇÃO E ILUMINAÇÃO EM EVENTOS GOSPEL”

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Gil Lucamba

Jornalista, Fundador e administrador do portal de notícias Arautos da Fé.

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