“Queremos quebrar as ilhas que existem no meio gospel”

Luís Capoco Delegado da Associação dos Músicos Cristãos de Angola, na província de Luanda, nomeado aos 30 de Maio de 2016, falou em exclusivo ao portal Arautos da Fé das dificuldades, do processo organizacional em curso e dos projectos da Associação que cuida dos artistas cristãos.
Esclareceu equívocos sobre Associação e afirmou que não é um grupo para uma certa casta.

Primeira reunião de Delegação de Luanda, ocorrida dia 6 de Janeiro, no Município do Icolo e Bengo
Primeira reunião de Delegação de Luanda, ocorrida dia 6 de Janeiro, no Município do Icolo e Bengo. (Foto: Fb da Associação)

Arautos da Fé: Que balanço faz das atividades da Associação dos Músicos Cristãos de Angola destes últimos anos?
Luís Capoco: Nestes últimos anos a coisa tende a organizar-se. A Associação já está há algum tempo, mas nunca se divulgou taxativamente as delegações, os endereços etc. Mas de um tempo a esta parte, temos vindo a trabalhar fortemente na estrutura administrativa da própria organização, falo de Luanda onde sou Delegado.
No ano passado realizamos a assembleia provincial com todos fazedores de artes residentes em Luanda, realizamos em Maio um seminário de capacitação só com os membros da direção. O tema do nosso seminário foi “Gestão e administração da coisa pública” e o mesmo para a coisa divina. Culminamos o ano com vários encontros, reunimos todos os meses de forma ordinária.
Para o presente ano temos em vista o primeiro grande festival da cultura cristã. Isso vai acontecer já no dia 28 de Janeiro, pelas 14 horas no Cine São João. Apelamos aos artistas residentes em Luanda a fazerem parte desta festa porque, a Asso-Músíca não é um grupo dirigido, indicado para certo número de pessoas. É um grupo para todos que se revêm na cultura cristã. Eu gostava de deixar aqui os contactos dos Delegados municipais (Ver no fim da entrevista). Qualquer irmão que seja cristão, desde que esteja num destes municípios, pode fazer parte deste festival.
AF: Quantos filiados tem a Associação?
LC: No momento estamos a nos estruturar administrativamente. Este festival também surge para apelarmos aos irmãos que já estamos de portas abertas para que possam inscrever-se. Há de facto muita gente que queria ser membro, mas na altura sentimos que não haviam condições administrativas para atender as pessoas que solicitavam a nossa prestação. Com este festival, começamos oficialmente a campanha massiva de inclusão de membros.
AF: A Associação tem ideia de quantos músicos há por Luanda? Considerando só os que já têm um trabalho no mercado.
LC: Com trabalho discográfico no mercado… trabalho como tal, trabalho com qualidade, o número ainda é ínfimo. Mas se considerarmos qualquer músico gospel que lança trabalho na sua igreja, naquele canto…, estamos próximo de cinco mil.
Estamos a fazer este trabalho administrativo para amanhã termos dados concretos e podermos afirmar que somos X na classe A e X na classe Y. Creio que dentro de 2018 já poderemos falar com dados concretos.
Luís Capoco, Delegado Provincial da Asso-Música em Luanda
Luís Capoco, Delegado Provincial da Asso-Música em Luanda. (Foto: Fb da Associação)

AF: A Associação está a desenvolver este trabalho sozinha ou está a faze-lo em a parceria com outras instituições?
LC: Por enquanto, só nós mesmos. Porque, para solicitar parceira temos de ter uma estrutura bem montada, bem definida. Nesse momento já começamos, estamos a falar de Luanda porque a Associação é nacional e eu falo de Luanda, estamos a começar um trabalho organizado, estamos a fazer um mini-censo, alguns membros já receberam passes e estes já vão beneficiar das regalias de membro.
Muitos artistas não têm ideia do quão importante é tornar-se membro da ASSO-MUSÍCA. Por exemplo, um artista inscrito, pode realizar o seu evento em parceria com a Associação. A Associação pode acautelar o som, pode cuidar da publicidade. Também é nossa responsabilidade promover as músicas dos membros inscritos.
No caso de pirataria ou roubo, nós temos como defender, juridicamente, os artistas filiados. Sem falar de outros projectos que vamos anunciar no dia 28 de Janeiro. Temos grandes surpresas, estamos a lutar também pela carteira profissional, estamos a lutar para tratar da aposentadoria dos artistas.
Sobre tudo isso, em breve o nosso presidente Paulo Paz vai pronunciar-se, mas naquilo que me diz respeito estamos bem e estamos prontos a nos organizarmos para juntos chegarmos até onde pretendemos. Porque o objectivo deste festival é promover a união, o amor e as boas obras. Nós queremos quebrar as ilhas que existem no meio gospel e em uníssono fazer o trabalho de Deus, colocando como foco Deus e não a denominação.
AF: Falou de ilhas! Existem outros movimentos que se parecem com associações ou apenas são grupos que não reconhecem a Associação?
LC: Dizer que não reconhecem, estaria a ser hipócrita. Há mesmo hipocrisia no meio de muitos artistas. Quase todos os artistas de renome e não só, conhecem a Associação. Eles acham que não podem estar porque no passado se calhar não havia organização. E eu sempre tenho dito que a melhor forma de protestar é estar presente para mostrar como se deve fazer. Eu não posso protestar estando distante sem opinar. Para protestar tenho de estar dentro e dizer não vamos assim, o melhor caminho é este.
Ilhas existem sim. Hoje no musicall gospel, se aprece um empresário à um músico dizendo que quer fazer uma actividade com mais de X músicos, ele diz não há problemas dê-me o dinheiro e eu vou selecionar os artistas. E ele chama simplesmente dois ou três da sua confiança. E a Associação está aqui para quebrar essas limitações porque nós adoramos um só Deus e então quando há uma actividade é para nos puxarmos e principalmente, aqueles verdadeiros adoradores, que ainda não estão envaidecidos. Há necessidade sim de quebrar estas ilhas.
Dizer também que há uma organização que infelizmente, nasceu na Asso-Músíca e hoje definiu-se como associação da igreja Y. O que nós não queremos. Imagine que hoje tem associação da igreja X e depois aprece também associação da igreja Y! Esse espírito de religiões está a separar o povo, está a dividir os irmãos. Se discutirmos sobre religião, vamos esquecer que existe um Deus. Deus não separa, une.
Nós como Associação queremos quebrar esse flagelo. Dizer aos artistas, que independentemente de fazerem a sua arte, o objectivo não é defender as suas doutrinas, é defender a Palavra de Deus, é divulgar o Evangelho.
AF: A Associação conhece bem as dificuldades por que passam os músicos, os problemas que enfrentam. Há rivalidade, há competição entre os músicos cristãos?
LC: É por conhecer a realidade dos artistas que apareceu a Associação. Por conhecer as dificuldades que os artistas passam, apareceu uma organização legal, reconhecida pelo Estado e estamos aqui para nos tornarmos fortes. Porque juntos somos mais fortes. Vimos que um músico sozinho não faz muita coisa, mas se nos unirmos, vamos longe. Nos unimos e pela graça de Deus a Associação é super legal e está em condições de trabalhar com qualquer instituição estatal e não só.
A principal dificuldade ainda tem sido a hipocrisia, o espírito de vangloria, o espírito de separatismo. Eu estou aqui, ninguém mais pode chegar, eu conheço o irmão Gil, já não posso abrir esta fonte para nenhum artista senão também vai falar neste portal. É este espírito que queremos quebrar. Quando alguém consegue uma fonte, puxe o próximo. Isso é possível com uma Associação organizada como a ASSO-MUSÍCA neste tempo. Porque também é verdade que no passado não havia esta estrutura, mas agora pelo menos já estamos num passo diferente.
AF: As delegações municipais são funcionais, já podem atender as preocupações dos músicos?
LC: Estão sim prontas. Cada município tem uma estrutura. Em todos os municípios temos um delegado. Se o jornalista quiser, faça uma vistoria, ligue para o delegado, marque um encontro, vai ser atendido, vai ouvir sobre o projecto, vai saber o nível de organização.
Após a reunião tomou posse o Delegado do Município do Icolo e Bengo. (Foto: Fb da Associação)
Após a reunião tomou posse o Delegado do Município do Icolo e Bengo. (Foto: Fb da Associação)

AF: A Associação é auto-sustentada? Tem carências?
LC: Ainda temos carências sim. Porque as Associações vivem de quotas, parcerias e patrocínios. E nós na fase embrionária em termos administrativos, ainda não temos sustentabilidade financeira. Eu acredito que 2018 será determinante porque estamos a criar bases sólidas para que estes grandes momentos aconteçam. Tanto é que temos já marcados vários encontros para celebração de convénios, de parceiras. Por isso teremos muitas actividades nas datas importantes que a Asso-Músíca ao nível de Luanda vai coordenar.
AF: Têm o apoio institucional do Ministério da Cultura?
LC: Temos documentos assinados da nossa parceria, pelo menos ao nível nacional e estamos a nos preparar para darmos entrada da nossa papelada à Direção provincial da cultura, para que o “casamento” seja cada vez mais perfeito. Mas, é de salientar que o Ministério da Cultura não apoia somente… Está aí para ajudar noutras aberturas, aquilo que está ao seu alcance, como por exemplo, passo aqui está informação, vamos ter um mega festival nacional que resulta da parceira entre o Ministério da Cultura e a Asso-Músíca. Mais detalhes depois vamos anunciar, mas como é de âmbito nacional, só posso anunciar até aqui.
AF: Há pessoas que defendem que há muita heresia nas músicas gospel e pensam em criar gabinete de censura. É também filosofia da Associação criar uma área para censurar, ajudar a cuidar das músicas dos artistas?
LC: Se se tratar de um gabinete de censura, a única instituição a quem compete fazer é a ASSO-MUSÍCA. Porque é a única instituição legal e reconhecida no país para prestar serviços relacionados a arte cristã.
Aos nossos artistas, principalmente aqueles que pensarem em discos, as suas músicas serão censuradas. Porque não é possível controlar todos. Porque nós ouvimos já a música pronta. Os nossos membros, vamos educa-los no sentido de prestarem mais atenção na composição, mais atenção na qualidade sonora. Por isso é que somos uma organização, para mantermos encontro com esses artistas e mostra-los o caminho certo. Se chegares num artista e aconselhares, vais criar problemas e serás conotado como invejoso. Já uma instituição reconhecida e organizada, claro, tem como aconselhar, mostrar o caminho certo.
A heresia também tem haver com a falta de conhecimento do próprio artistas. O artista que simplesmente é da igreja mas não é cristão, tem debilidade de compôr. Nós só consideramos um artista gospel aquele que conhece e vive a Palavra. Não é simplesmente aquele que pega uma música qualquer a falar de Deus. É uma música gospel, mas o músico não é gospel. Na Associação, tenho um vice para área espiritual. O trabalho dele é reunir com os artistas e falar da Palavra, passar um ensinamento suficiente para um artista ter uma base forte para quando for chamado num debate para falar da Palavra de Deus.
AF: As produtoras estão convidadas a participarem da Associação?
LC: Lógico que que sim, mas numa primeira fase estamos a trabalhar ainda com os músicos. Somos reconhecidos para trabalhar somente com os músicos. Mas o processo já entrou para alargarmos à todos os fazedores da arte. Já tivemos encontro com o Director Nacional para Acção Cultural do Ministério da Cultura e ele disse que aqueles estúdios cristãos não reconhecidos pela Associação, não poderão gravar.
Vai chegar esse momento em que as informações serão expandidas e muitos músicos ignorantes vão perceber o peso da organização que está ao alcance de momento, mas depois terão que rolar muito para entrarem. Por enquanto está a disposição de qualquer um, vai chegar uma fase que cada um vai andar quilômetros para fazer inscrição na Associação.
AF:Que apelo quer fazer a classe artística?
LC: É triste ver que ainda há desunião no seio cristão. Nós apelamos amor, união, as boas obras. Se nós nos organizarmos, seremos mais fortes.
Vou-lhe dar um exemplo: é filosofia da organização que cada artista apoie o próximo. Suponhamos que consigamos até junho reunir cinco mil membros e o irmão fulano vai vender seu disco no dia 30. Eu como Delegado Provincial, baixo orientação aos Delgados municipais. Cada membro inscrito é obrigado a ir comprar disco do próximo. Não será que todos nós estaremos bem? Então pensem nisso, reflitam, porque a Associação não está aqui para brincar. Está para evoluir a própria música e a situação social do artista. Ao invés de cobrarem cachês anarquicamente, que tal nos organizarmos e sermos nós a consumir as obras, porque independentemente de fazedores, também somos consumidores.
Contactos dos Delegados municipais da Asso-Músíca em Luanda
1. Luanda – Domingos Luís Joaquim; 923 935 454 / 913 068 830
2. Talatona – Livana Afonso Tomás Samuel (Dina Livana); 933 330 696 / 992 495 729
3. Viana – João Chatota Faustino – 925 325 225 / 991 837 420
4. Kilamba – Kiaxi – Nelson Prata Cassende – 990 430 162 / 924 430 162
5. Belas – Manuel Miguel Alberto Armando (Ir. Lucas); 933 860 087 / 997 385 569
6. Cazenga – Osvaldo da Cruz Martins; 995 360 887 / 945 358 086
7. Cacuaco – António José João (Ir. Veury); 924 743 156 / 998 690 064
8. Icolo e Bengo – Mambuene Eduardo Neves – 925 001 611

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