Poetas devem se organizar

Criador do estilo fussionismo, mistura entre poesia, dança, artes plásticas, teatro e outras artes, Nelson Salvador Costa Neto, escritor e poeta, concedeu uma entrevista ao portal Arautos da Fé, em que falou da sua carreira e analisou o estado desta arte em Angola.  Desde o passado mês Junho,  o poeta Momentâneo, como é conhecido nas lides artísticas, tem no mercado o tema “Sobrevivente do Inferno” onde aborda problemas sociais do mundo contemporâneo  como fome, miséria, corrupção e “doenças comerciais”. 

Formado em jornalismo, além de escritor e poeta, é pesquisador cultural e declamador. 

Poeta Momentâneo

Poeta Momentâneo tem no mercado o tema “Sobreviventes do Inferno”. (Foto: cedida pelo entrevistado).

Arautos da Fé: Quem é o poeta Momentâneo?

Poeta Momentâneo: É um jovem angolano, natural da província do Huambo. Um jovem cada vez mais preocupado com o que está acontecendo no mundo, nas vertentes social, política… e que entrou para as lides culturais muito cedo.

Desde criança, nos colégios por que passei, foi sempre motivado. A primeira arte que fiz foi rapper, depois teatro no grupo Oásis da Força Aérea. Fiquei lá um bom tempo, aprendi muito com o professor Africano Kangombe e até hoje tenho muito respeito por este senhor. Decidi engrenar no ramo poético por certos factores muito pessoais. Sou órfão de pai e mãe. Na verdade, não conheci a minha mãe. Contam os meus tios, que os médicos tinham de decidir entre ela ou eu e, por ser o único rapaz entre várias irmãs, ela decidiu dar prioridade a esse jovem que vos fala.

Cresci com o pai, obviamente tive a oportunidade de conhecê-lo. Mas mesmo assim perdi-o. Daí decidi investir mais na arte da declamação e sempre que subia ao palco, as pessoas preocupavam-se muito com o jeito como eu declamava. Não só pela força que trazia, mas porque sentiam…, eu recebia muitos relatórios: Quando tu declamas arrepias as pessoas, tipo fazes isso com muita raiva.

Isso foi de certa forma, ajudando naquilo que é o processo de declamação. Fui evoluindo, crescendo obviamente. Tive de olhar para aquilo que é o mercado, porque isso é profissão, ver quantos existem na própria disciplina declamação e mudar também, um bocadinho o roteiro porque, há muitos poetas na cidade de Luanda e não só, nas dezoito províncias, que a sua performance é sempre igual.

Foi dai que decidi desenvolver o meu estilo denominado fusionismo poético, onde reúno a poesia declamada com outras artes. Poderá ver o poeta Momentâneo a declamar com representações de teatro, mas um teatro sem fazer uso da fala. Se estiver a falar de guerra, de fome como é o tema que estamos a promover sobre Sobrevivente do Inferno, verá que há uma representação teatral por parte de todos aqueles elementos que vou denunciando através da poesia.

AF: Quando é que sentiu que tinha essa veia poética dentro de si?

PM: Como já expliquei, foi uma questão da própria vida que obrigou-me a se redescobrir. Por causa das várias situações que fui passando.

AF: Que mensagens trazes nos seus trabalhos?

PM: Uma mensagem espiritual. Não gosto muito de ser rotulado como artista gospel conforme muita gente aparece e diz. Faço arte gospel, evangelizo as pessoas através da minha arte, mas, parece que na nossa sociedade, quando tu te identificas como artista gospel, já te tiram, numa escala de 100%, tiram 89. Mas faço arte gospel e dentro daquilo que eu comunico, dentro da minha obra de arte, trago a tona questões espirituais, sociais e pedagógicas. Mas sempre com o objectivo de modificar cérebros, modificar vida de pessoas, transformar pessoas através do que a gente expressa pelos microfones.

AF: Que projectos está a desenvolver neste momento?

PM: Estamos, quando digo estamos refiro-me a equipa, preocupados com a divulgação do tema Eventos do Inferno, em que abordamos várias situações do mundo, xenofobia, pedofilia, homossexualidade, corrupção, doenças comerciais, tanta gente a morrer e as pessoas vão investindo na guerra, porque a guerra é negócio.

Falo de vários elementos conteudisticos que de certa forma, incomodam enquanto ser humano, enquanto ente espiritual. Mas como sabe, essa questão de ter livros CDs, há outros factores financeiros que é necessário reuni-los para que a gente possa ter uma obra que justifique aquilo que é o trabalho que já vimos fazendo desde há muito tempo. 

Poeta Momentâneo

Formado em jornalismo é  também um pesquisador cultural (Foto: cedida pelo entrevistado)

AF: No momento, a sua preocupação é fazer a divulgação em Luanda?

PM: Não. Ao nível do país. Quando já estamos nas plataformas digitais, as TICs já ajudam muito. Só a título de exemplo, lancei a poesia no mês passado, mas já tenho estado a receber inúmeros telefonemas de pessoas a dizerem que se identificaram com o trabalho, gostaram do trabalho, querem na verdade que eu continue. Isso é daquelas coisas que não se pagam. Por vezes estou a dormir ou a meia noite estou a escrever alguma coisa, gostamos muito da noite, não sei se é por ser poeta e está aí alguém a ligar, por vezes de alguma província a desejar força.

AF: Que impacto sente que a poesia tem dentro da sociedade?

PM: Fazendo recurso a história angolana, os poetas declamadores, sem falar daqueles que são os grandes gurus da literatura, a gente sabe que sempre tivemos o Fridolin Kamolakamuwe, que é uma lenda da poesia declamada e que merece todo respeito de todos aqueles que vem. Falamos quando a gente pode pela internet, acompanha o meu desenvolvimento e dá-me muita força.

Acredito ainda, que precisamos ter mais oportunidades porque o poeta também é um artista. Das várias disciplinas culturais, a música aparece como a mais destacada. Na verdade temos as artes plásticas, teatro, dança, poesia e literatura. Então, na poesia começa já a ter uma febre, acho que é febre alta. É bom que quanto as pessoas estão a enveredar por este caminho definam bem os seus projectos e levem como carreira. O peso, a responsabilidade é tão elevada que tu não consegues suportar. Imagina, por parte daqueles que anunciam Deus nas suas temáticas, nós somos poucos, que levam como carreira. E os que têm, ainda criam certas intrigas que do nada desenvolve o próprio artista. Se queremos ter espaço nos eventos gospel que têm estado a acontecer e não só, é necessário que a gente identifique bem o nosso projecto e trabalhe para as pessoas reconhecerem verdadeiramente que, somos fazedores de arte.

AF: Como na música, na poesia também existem aqueles que têm opiniões contrárias quanto a possibilidade do artista vender os seus trabalhos. Qual é a sua posição?

PM: No que concerne o gospel?

AF: Sim.

PM: Bem, eu tenho estado a observar com uma tristeza muito entristecedora, alguns elementos conteudisticos que me chegam através da internet. Na verdade, é necessário, não precisas estudar em Harvard para compreenderes isso, que haja investimento para a coisa fluir. A título de exemplo, se hoje temos o Thalles Roberto que o mundo conhece, que através da sua música muita gente se converteu, que através da sua música ungida Deus modificou vidas, há um trabalho proeminente que se fez com a música de Thalles Roberto. Cassiane, pastora Ludmila Ferber, Aline Barros e outros cantores internacionais. Os nacionais que a gente conhece estão a fazer o seu trabalho. O que precisamos saber, é que para todo projecto é necessário investimento.

Hora, se a gente vender uma imagem de mediocridade, de que artista gospel é aquele muito humilde, que põe gravata, põe fato e que está sempre ali, tudo que lhe perguntam é amém, é aleluia, quase que a gente não vai ter respeito. E o mundo está sob uma velocidade, que se tu não te meteres nas plataformas que exige, ficas ultrapassado com as TICs. Quem vende o seu CD, caracterizando Angola, óbvio que não vou ter com o Heavy C para produzir um beat para mim declamar por cima dele, dizendo Heavy C Deus te abençoe muito por favor faça um beat. Tens que perceber que aquilo é trabalho dele, ele ganha pelo seu trabalho e você simplesmente tens de levar dinheiro.

Aquelas pessoas que gostam do artista para poder estar na igreja, apresentar o seu trabalho, para estar no concertos musicais, para estar num encontro familiar, devem saber que o ministério deve ser alimentado. O ministério não é só alimentado, obviamente, com orações. Há coisas práticas, há contas para pagar, desde quando tu entras num estúdio pagas quatro horas, equivalentes a um determinado valor. Estamos no século XXI, aqueles tradicionalistas que vem com aquele discurso que se de graça Deus te deu, de graça dai, que continuem.

Eles que não vendam CDs, continuem na casa deles, vão ao culto depois voltem para casa. Se fôssemos nós os errados, acredito que desde pastora Ludmila Ferber, Cassiane, os nossos irmãos angolanos, Bambila, Dodó Miranda, todos nós vamos ao inferno porque estamos a vender obra, estamos a vender disco, estamos a vender livros. Estamos no século XXI, o recurso a comunicação, deve-se fazer valer da velocidade do século. Se não ficas nessas plataformas que te obrigam a estar, de nada te vai valer…

AF: Já existe mercado para a poesia gospel?

PM: Eu acho que isso é como na economia, os mercados são criados. Eu, pelo menos, desde que comecei a fazer essa arte até agora, com a minha linha diferenciada de outros colegas, graças a Deus, não de forma sequencial, várias vezes Deus me tem abençoado por cada actuação que a gente vai fazer. A gente movimenta pessoas, a gente ganha pelo trabalho que faz. É necessário que tu cries o teu próprio mercado com objectivo de fazer as pessoas acreditarem no teu trabalho.

Todo mundo tem uma fase inicial. O tempo de levar colunas, de apanhar táxi, de pagar o preço, porque o sonho é teu. Ninguém sente uma vontade de mostrar o seu talento quanto o próprio artista. Há uma brasa dentro de nós e você quer explodir. Quando vês microfone, queres expressar o que sentes, queres transmitir alguma coisa. Então, se há mercado ou não, tudo depende da metodologia que cada artista, cada poeta vai se identificar para…, eu por exemplo, procurei por formações. Tive que primeiramente perceber o que é literatura, tive que estudar textos, estudar vários assuntos ligados a literatura, declamação, tive que investir. Fui inúmeras vezes a casa de Pepetela, a casa de João Maiomona, fui inúmeras vezes a União dos Escritores para, em pelo menos cinco minutos, algum destes mais velhos me receber e ouvir a minha declamação.

Paguei o preço que paguei e hoje em dia, a carreira tem fluido, as pessoas têm estado a receber. Olho por exemplo para um texto que fiz em 2010 e o actual, há uma distância abismal. Da para ver que a gente cresceu. Mas é necessário crescer, isso é uma ciência, aprender primeiro a ciência, depois transformar ela em arte.

AF: Quais são os lugares onde tem se apresentado?

PM: Isso depende normalmente das ligações. Mas não passam de igrejas, concertos musicais, eventos sociais, eventos pedagógicos, eventos que não beliscam a nossa boa imagem, aquilo que a gente transporta como artistas que anuncia a Palavra de Deus.

AF: Que caminhos aponta para a massificação da poesia?

PM: Primeiro, os poetas que vem agora, mesmo até os que já estão aí há muito tempo, ainda não perceberam certas coisas. Devem se organizar. Pegar a sua carreira, munir ela, transformar, criar a sua própria imagem, porque tudo vale. Os mais tradicionalistas, que continuem a ficar no canto deles, simplesmente a fazer relatórios dos trabalhos que as pessoas estão a fazer, apontar dedos. Essa classe também, no mundo tem que existir.

Aquele que quer ver a sua carreira desenvolvida, Deus a lhe abrir portas, lhe abençoar com o trabalho que está a fazer, ganhar credibilidade pelo que está a fazer, invista tempo. Tens que saber que vais dormir pouco, que vais ao encontro das pessoas, que vão te desligar telefone. Tens que entender que vais ter de bater portas que nem sempre vão se abrir, perceber que há inúmeros sacrifícios.

Muitas vezes as pessoas olham para certos artistas, e já aconteceu comigo, só estão ali para elogiar o que ela está a ver, o que ele está a ver. Mas por trás disso, esquecem-se que há um sacrifício proeminente. Muitas vezes, quando algum familiar vem com algum espírito de poeta, querendo se fazer de poeta, digo procura outro caminho. Eu não posso falar que aqui é bom caminho porque estou a sofrer. O que eu aconselho é, vai procurar outro caminho ou dança lambada… Aqui é para quem tem amor, depois do amor é para quem quer transformar vidas através do que transporta na poesia declamada. É muito duro, mas é preciso ter persistência, fé acima de tudo, muita organização, muita disciplina e o resto Deus faz.

AF: A música e a poesia podem desempenhar um papel relevante na sociedade angolana?

PM: Sim. Música é poesia, poesia é música. Todas as letras que se cantam, são poesias.  Em todo sítio tem poesia. Ela pode ser inserida na sociedade com o objectivo de modificação das consciências das pessoas. A música e a poesia transformam. Mas lembro que conheci vários jovens que estavam em caminhos torpes. Por causa de vários projectos, várias associações que proliferam no bom sentido, a literatura, a arte da declamação, são hoje em dia grandes activistas literários, pessoas que quando falam transportam muita fé. A poesia mudou, a literatura mudou vida das pessoas. Como na música, quando alguém está desesperado ou desesperada diante te uma situação e ouve uma boa música, uma boa poesia que consegue de certa forma betumar os buracos que encontra no seu coração, ela é sempre bem-vinda. Não se vive sem arte. É pena que o Ministério da Educação ainda tem olhado para os artistas de uma maneira muito ostracizante. Mas, as artes devem estar em todas as disciplinas académicas. Através das artes as pessoas soltam-se, livram-se de certos espíritos que lhes atormentam.

Tem aí o papel pedagógico, espiritual de mudança. As pessoas quando passam por um certo problema, a música até pode ter uma certa beleza, estética, pode atrair corações, pode fazer chorar, mas o que mais nos preocupa nos que queremos levar uma mensagem evangélica, ou aqui acentuando gospel, é mudança da vida das pessoas. Como há tempos alguém me ligou do Zaire dizendo: ouvi o teu tema sobre Sobreviventes do Inferno, mano muito obrigado.
É isso que se precisa para os outros artistas, as pessoas se reverem nos temas com várias facetas. Nem sempre, na verdade, é para pôr as pessoas a reflectir em muito. Porque a arte também não é assim muito séria. Não é para as pessoas estarem ali como se fosse um quadro de artes plásticas que só o próprio autor é que sabe o que queria expressar. Mas transportar alegria, entreter as pessoas através da arte é o nosso objectivo.

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Gil Lucamba

Jornalista, Gestor de Mídias Sociais. Fundador do portal de notícias Arautos da Fé.

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