Nguito Pandas convida músicos a serem humildes

Colocou 7 obras discográficas no mercado, venceu um prémio, tem apoiado vários artistas e causas sociais com fundos próprios e diz ser grato a Deus por estar onde está hoje. Sua graça, Domingos Francisco Pandas, Nguito, no meio artístico.

O músico, abriu a porta do seu gabinete para responder a várias questões do portal Arautos da Fé. Na conversa de quase meia hora, em que falou da sua trajectória e analisou o mercado actual, disse que os músicos estão divididos em ilhas e revelou que não tem problemas com ninguém.

Aos artistas, aconselhou a não se envaidecerem e a não correrem, para evitar cair na primeira esquina e depois perder a vontade “continuar a cantar gospel”.

Nguito Pandas, músico evangélico.

 

Quem é Nguito Pandas?
Domingos Francisco Pandas, nascido aos 18 de Março de 1965, natural de Luanda, município do Sambizanga – Santo Rosa. Pai e mãe naturais da Barra do Dande, músico gospel.

Vida familiar…
Casado, pai de 6 filhos, onze netos…

Como é que entra para o mundo da música gospel?
Entrei no mundo da música gospel como artista, em 2009. Mas já canto desde tenra idade, pois o meu pai foi pastor metodista. Nos anos 60, o meu pai era guia da da Classe Formosa no Sambizanga, onde eu nasci. A nossa casa era a classe. Fui ouvindo louvores e aos 7 anos de idade, pela primeira vez, fui cantar com o coro central dos adultos. Fui ganhando vontade de cantar.
Aos 13 anos, já no Congo Democrático, era regente do coro dos adultos. Em 80 volto para Angola, o meu pai já era pastor no Uíge. O meu pai é co-fundador da Igreja Metodista Unida no Uíge. Lá, também pertencia ao grupo coral e depois vim para Luanda para retomar os estudos, fui apanhado na rusga, entrei para as FAPLAS em 82 e aí perdi o contacto com a igreja. Fiquei nas FAPLAS durante 10 anos, quando sai das FAPLAS em 92, procurei a vida e fiquei mais 10 anos a procurar a vida, mas sem contacto com a Igreja.
Em 2002, Deus me tocou, chamou-me de volta a sua casa. Em 2007 ou 2008, o Dodó Miranda foi me convidando para gravar: Kota eu tenho estúdio vai… não perde só a tua voz assim e tal. Então em 2009 aceitei o desafio e gravei o primeiro álbum “Tonda Yisu” que lancei na Praça da Independência no dia 10 de Julho de 2010. Graças a Deus correu tudo bem. Em 2013 lancei a segunda obra, o “Kamba Dia Muenho”, retirei louvores do hinário “Kamba Dia Muenho” para o disco.
Em 2014 lanço a terceira obra que intitulei “Com o Meu Jesus”. Em novembro de 2014, fui premiado com este trabalho, como melhor disco gospel de 2014, em Angola. Para Além destes discos, também já ajudei outros cantores gospel a entrarem para a praça gospel.

Que avaliação faz destes anos que está na música gospel?
Salutar. Salutar porque saí do anonimato e de repente vim parar a ribalta. É uma luz que veio de Deus, felizmente creio eu, posso dizer sem ajuda de ninguém, sem o empurrão de quem quer que seja, com excepção de Deus, consegui caminhar devagar até chegar onde estou. Mas mesmo assim, ajudando os outros que precisaram mais do que eu.

Tem recebido retorno positivo das pessoas que acompanham o seu trabalho?
Acredito que sim. Tenho tido bom retorno, em qualquer sítio que vou, sou reconhecido, sou valorizado acima de tudo. Isso é mais importante, que as pessoas nos valorizem.

Além de cuidar da sua carreira também apoia alguns jovens músicos?
Sim. É este o amor ao próximo, nós não devemos subir sozinhos, porque se caíres, não terás ninguém para te amparar. Nesta minha trajectória, em 5 anos consegui tirar 7 trabalhos discográficos. Em 2011, consegui por no mercado gospel, a cantora Miranda. Em 2013, a irmã Iraldina e a irmã Lukeba. Em 2015 lancei também a irmã Tê Kuanzambi. Neste momento, estamos a lutar para conseguirmos tirar o disco dos JTS. Neste momento é a batata quente que eu tenho. Vamos fazer das tripas o coração, mas este ano o disco estará na mão do povo de Deus.

Destes que citou, alguns ainda trabalham consigo?
Neste momento estou com o grupo JTS e a Tê Kuanzambi. As outras, tentaram já dar os seus próprios voos, oxalá que Deus as ajude, porque não é fácil. Nós só conseguimos dar conta do que os nosso país sofreram, quando também somos pais. Quando o dinheiro de comprar o pão, comprar o caderno…, então sabemos que o nosso pai quando nós nasceu até atingirmos a adolescência ou a fase adulta, gastou muito. Aí conseguimos valorizar os nossos pais. Você quando não se torna pai não sabe o que o teu pai sofreu. Te sujar a camisa quando estás limpo. O filho vem suja a camisa do pai e tal. Isso é parábola, para bom entendedor meia palavra basta.

Em termos de trabalho, o que é que Nguito Pandas está a fazer actualmente na música?
A prioridade com toda sinceridade é tirar o disco do grupo JTS. Neste momento a Tê Kuanzambi está a internacionalizar a sua música. Estou focado nestes dois. Eu como pai, calma ainda. Não adianta tirar muitos discos, o povo ainda não tem dinheiro, vamos esperar que melhore. Os discos estão a sair tipo pirilampo, acende apaga, acende apaga. Então, convém esperar a hora de Deus para voltar a fazer novos trabalhos.

Será que a crise que está a viver o país está a afectar também o mercado da música gospel?
De que maneira! Todos os mercados e de que maneira. Há que escolher, vais comprar pão ou vais comprar disco?
A pessoa prima pelo pão. Mesmo assim, o disco ainda não é valorizado. Não é. O que nós gostamos até ficar disco, nem com mil e quinhentos kuanzas… por exemplo, o que eu fiz nos Estados Unidos da América, pagar DHL, pagar alfândega, até chegar em sua mão, é muito dinheiro. O tal mil e quinhentos kuanzas, que são USD 3,5, não compensa 5 dólares que você empatou.

Por não termos fábricas de discos aqui, não será que os músicos deveriam estar unidos, a associação dos músicos conversar com o governo para a redução das taxas?
Acredito que é a luta da Asso-Música. Com este andar de a gente depender de tudo lá de fora, fica super complicado, até tira vontade. Eu que nunca recebi patrocínio e é mesmo meu dinheiro do bolso, fica complicado. Se alguém recebe patrocínios e ninguém quer nada de volta, a gente consegue tirar só para evangelizar. Agora, para retorno financeiro, não.

A pirataria também influencia nessas perdas?
Parece que sou dos que mais sofri, porque quando lancei o disco “Kamba Dia Muenho”, um disco muito bom, muito bom mesmo, encontrei o meu disco a ser comercializado no Kikolo a 70 kwanzas. As pessoas iam lá comprar para revender a 200. Encontrei na Múxima a 200 kwanzas. Encontrei nos kwanzas a 150… Então, tira-te o ânimo.
Você que empata, você faz coisa com vontade de agradar o povo de Deus e os piratas fazem dinheiro com o que você gastou. Você gastou não tira, mas as pessoas que não gastaram nada conseguem fazer a sua vida…. É super complicado realmente.

São estes momentos em que a união dos músicos se calhar possibilitaria criar ideias e mecanismos para trabalhar com o governo e combater esse fenómeno.
Acredito que sim. Nós não estamos nada unidos, estamos muito desavindos. Cada um tem a sua ilha. Estamos por ilhas até. Se fosse possível juntar-mo-nos e levar a Asso-Música a sério, talvez pudéssemos então ir até ao governo, pedir que vissem a nossa situação. Acredito que a situação dos músicos seculares é melhor vista do que nós os gospel. Ainda nos dão de coitadinhos por aí e tal, então, não há aquela atenção que deveria ter. São esses músicos gospel que conseguem, quando há aflição no país, orar, cantar para que haja paz no coração das pessoas, haja união, para que a delinquência diminua. Precisamos de apoio para termos tardes em espaços livres, para projectarmos a palavra cantada aos jovens. Acho que ficarão 10, 20, 1 hora connosco, mas ouvindo palavras e conseguiremos converter muitas pessoas quando lançamos a Palavra gospel no mundo.

Tem acompanhado o trabalho da Asso-Música?
Tenho sim.

Qual é a avaliação que faz?

Neste momento estamos a tentar nos reorganizar. A chamada de atenção que tivemos na reunião dos Combatentes da Fé, já apareceram mais pessoas interessadas, muitos não sabiam o que é a Asso-Música. Mas é um trabalho que está a ter algum realce. Acredito que daqui a mais 1 ou 2 anos, estaremos todos juntos e unidos para então trabalharmos em prol da música gospel em Angola.

Como é o seu relacionamento com os músicos mais novos?
Olha, aqui no meu gabinete vem pessoas que nem imaginas. Quando posso ajudo, não financeiramente. Mas levando em locais, rádios para divulgarem a sua música. Aconselho, não tenho problemas com quem quer que seja. Se alguém tem problemas comigo é da conta dele, mas eu estou sempre disponível para ajudar o próximo. Esta é a tarefa que Deus me deu. Este coraçãozinho que tenho, essa bondade que Deus me deu, sempre que estiver pronto a ajudar o próximo estarei aqui disponível. Não tenho problemas com nenhum jovem. Não.

Qual é a mensagem que deixa para a classe de artistas gospel?
Primeiro, que sejamos humildes. Esta nobre missão pede-nos humildade, cantar para Deus. Segundo, não nos envaidecermos. Vaidade é coisa passageira. Do pó viemos, ao pó voltaremos. Vamos deixar de vangolorias. Porque a missão de um músico gospel não é para ser vangloriado. Terceiro, aos jovens muita paciência, muita calma. Não ter pressa de lançar disco, não ter pressa de ir a fama, porque a fama vem consoante o nosso trabalho. E nós não estamos aqui para lutar para a fama. Estamos para lutar para o Evangelho de Cristo. A nossa missão, é evangelizar até aos confins da terra. Esta é a primeira missão que temos. Não lutar, correrias para discos porque podes cair na primeira esquina, depois não terás força nem vontade de voltar a continuar a cantar gospel. Isso aconselho a todos:vamos devagar, que tudo na hora de Deus te vai acontecer.

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Gil Lucamba

Jornalista, Fundador e administrador do portal de notícias Arautos da Fé.

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