“Não é vontade do Paulo Paz estar na associação. É a vontade de Deus”

Autor da música “Jesus é a solução”, a primeira por sinal, de que tem registo, a tocar numa rádio, numa altura em que os músicos mais se preocupavam em fazer do que em fazer bem, Paulo Paz, assume estar na origem da “revolução” que catapultou a “música da Igreja” para a hoje conhecida música gospel ou evangélica, como alguns a preferem chamar.

Em entrevista exclusiva ao portal Arautos da Fé, o co-fundador e actualmente Presidente da Associação dos Artistas Cristãos de Angola, falou da sua trajectória, do passado “ensombrado”, presente e futuro da associação que ajudar a criar.

“Uma coisa que me põe as vezes, um pouco triste, é que o meu nome foi tão sujado por um indivíduo que nem adianta falar o nome, por inveja. Era o tal, Director da Acção Cultural.” Revelou na entrevista que pode agora ler a sua primeira parte.

Paulo Paz, Presidente da Asso-Música. Foto: Carlos Filipe)

Paulo Paz, Presidente da Asso-Música. Foto: Carlos Filipe)

Arautos da Fé: Conte-nos um bocado da sua trajectória.

Paulo Paz: Primeiro agradecer o portal Arautos da Fé que tem feito grandes grandes trabalhos. É um portal que realmente está a se impor no mercado com muita força e nós, damos força e coragem para continuar.

Eu sou do Cuanza Sul, propriamente do Libolo – Calulo. Venho de uma família que nos anos 70/80 se impôs no mercado comercial. Venho da família Paz. Anita Paz é a minha avó, sou filho do Paulo Paz e da Maria Helena Sobia. É uma família que sempre frequentou a Igreja Católica. Lembro-me quando era miúdo obrigavam-me a ir a igreja. Ia com a minha mãe, mas às vezes ficava um pouco aborrecido com a demora do culto. Não era aquela ida constante a igreja. Ora ia, ora não. 

Em 1983 surge uma guerra da UNITA que penetrou no município de Calulo. Dia 5 de Setembro, fomos obrigados a sair do Libolo para Luanda. Em Luanda fui vivendo com a minha tia, estudando pela aplicação ensaio no Alvalade, na zona verde e depois da 5ª classe para cima, no Ngola Canini e Ngola Kiluanji. Mesmo cá em Luanda não era ligado a Igreja. Lembro-me até que a primeira pessoa que ouvi a cantar foi a irmã Sofia. Mas não dava muita importância a música gospel, aliás, não era chamada música gospel, era chamada música da igreja. Eu sentia até vergonha de escutar música gospel ao lado das pessoas, não dava importância e até olhava os cristãos como pessoas pobres, mizerentas, que não tinham nada a fazer e refugiavam-se na igreja para passar o seu tempo.

 

Conversão

Um dia destes de tanto andar, sempre andei com grandes artistas entre Moniz de Almeida, Beto de Almeida, Tony Nguxi, Tony Amado, Paulo Flores, Eduardo Paím. Éramos pessoas normais e também andávamos em copos, com whisky no carro e tivemos um amigo que andava connosco que era o Alemão Kailo, esse  é que depois, não sei como foi evangelizado, começa a frequentar a igreja. Ele vem me evangelizar e eu até desprezava ele e dizia isso para mim não pega. Ele frequentava a Assembleia de Deus Pentecostal do Maculusso, levou-me a uma tarde de louvores, fui ouvindo o Pastor Jaime, pessoa que nunca mais vi ali no Maculusso, cantava que cantava. Mas de tanto ouvir as músicas do Pastor Jaime, comecei a me envolver na música e a partir dali acabei gostando. Posso dizer até, eu fui evangelizado através do louvor.

 

O ministério

O louvor é que me levou a frequentar a igreja do Maculusso. Acontece que de tanto frequentar o Maculusso, eu ia orando e depois via grupos corais, via diáconos, via o protocolo da igreja, via uma organização tão linda e me perguntei: aqui onde é que vou me enquadrar? Fui me perguntando durante um mês. No Segundo mês é que surge uma voz que diz vais te enquadrar no ministério de louvor, mas não só dentro da Igreja, é ao nível do país. Tens que fazer grandes trabalhos a favor do desenvolvimento da música cristã nesse país. Eu disse isso não vou aguentar. Mas como a força de vontade era tanta, o homem que me evangelizou, o Alemão Kailo, um irmão chamado Jones Umbila, formamos um grupo que se chamava Emanuel.

O que fomos gravando, eu estou a falar dos anos oitenta e tal a ir para os anos 90, não havia essa avalanche de música gospel. Só ouvia apenas a irmã Sofia e as músicas da irmã Sofia, eram mais ou menos músicas do óbito. Não sei como é que instrumentalizavam naquele tempo, mas as músicas eram desenhadas para óbitos. E todo mundo tinha a imagem que a música cristã é só para óbito. 

Na igreja era proibido fazer uma música com grandes instrumentos e grandes instrumentalizações, porque confundiam com música do mundo. Na rádio, não passavam essas músicas porque tudo que era da igreja era proibido. Na televisão era proibido.

 

Primeiras gravações

Fomos gravar as primeiras músicas no Eduardo Paím, porque nós tínhamos amizade com estes artistas todos Nelo Paím… ele é que nos faz as primeiras gravações. Eu estou a falar dos anos 86. Gravamos a música “Jesus é a solução”, gravamos músicas do antigamente, que praticamente moviam as igrejas, aquelas músicas populares cristãs. Gravamos, mas não pusemos a tocar porque faltava-nos dinheiro para fazer o disco. Não havia dinheiro e a partir dali é que os meus amigos, viagem mais viagem e eu fiquei aqui a promover a música “Jesus é solução”. Mas antes de promover essa música, eu e os meus amigos pegamos a maquete das 12 músicas, fomos até ao nosso Reverendo Francisco para apresentar a obra que fizemos. Nos recebeu em audiência e pusemos as músicas a tocar e eu tremia porque “Jesus é a solução” era zouki/ kizomba autêntica e naquela altura dizia que essa é música do mundo. E eu dizia aos meus amigos, não ponham a kizomba, metam as músicas antigas da Igreja, porque senão o Pastor Francisco vai nos puxar a orelha. Então, escapa e vem a kizomba. Nós ansiosos a dizer que o Pastor Francisco vai gostar porque tem qualidade, gravamos num estúdio com qualidade, com um homem que instrumentaliza com qualidade, verdade seja dita, naquela altura as músicas da igreja não tinham qualidade nenhuma, eram músicas da irmã Sofia que tocavam mais na praça do Roque e tocavam mais em quintais de óbito. 

 

A rejeição do líder

Nós ansiosos, o Pastor Francisco levanta-se sem falar nada, vira-nos as costas e põem-se a andar. Nos olhamos e agora! Fomos para lá a correr. <Pastor  Francisco, trouxemos as músicas para o pai nos abençoar>. Ele olha para nós e pergunta: <vou vos abençoar como? Isso que vocês trouxeram é música? Isso é um lixo, pra já, isso é música do mundo.>

Nós ficamos todos envergonhados, eu que estou a falar, fiquei quatro meses na minha casa sem ir a uma igreja. A tal música, desde os anos que gravamos que foi, 86/87, ficou em casa por volta de 4 a 6 anos. Lá depois é que apareceu o meu amigo, foi me motivando, foi dizendo não liga isso que o Pastor falou. Eu estava com a moral baixa e disse: <se o nosso líder nos abandalhou assim, a música que fiz é essa, a música que gosto é essa, agora vou tocar aonde? O mundo não recebe, a igreja não recebe, vou fazer como?>

Fiquei totalmente desmotivado, é ali que depois com aquela moralzinha, mesmo sem ir a igreja, vou até a rádio Ecclesia, já estou a falar nos anos 90, encontro o João Pinto, o Gabriel Niva, fiz-me amigo de outras pessoas dentro da rádio Ecclesia e entrego esta música ao João Pinto. Mas o João Pinto não me conhecia, eu fui em nome do Beto Chumbinho, ex jornalista da rádio Luanda, dizendo que o Beto Chimbungo é que me disse para vir ter contigo. Mas aquilo era mentira. Era só uma maneira de chegar porque ele era o mais falado lá, era o que mais promovia. Naquele respeito a dizer que o meu amigo Beto Chimbungo é quem mandou, foi tocando. Tocava de manhã, todos os dias, de tarde quem tocava era o Gabriel Niva, todos os dias.

 

O sucesso

Durante 6 anos consecutivos a música tocou de manhã e de tarde. A música que foi rejeitada no Maculusso.

Foi tocando, foi motivando outras pessoas a fazerem o mesmo estilo porque pensaram que esse estilo afinal é que está a bater, como eu também quero bater, tenho de fazer esse estilo. Outros, foram fazendo raggae e outros estilos. Depois de 6 anos a música tornou-se bastante conhecida, nesta, é que o Mário Santos, o jornalista da rádio Mais, que é também o apresentador do programa Sons de África da TPA, vai trabalhar na Ecclesia e gosta da música “Jesus é a solução”. Depois ele leva para a rádio Escola. Eu no meu carro, um amigo liga e diz Paulo Paz a tua música está a tocar na rádio Escola. Está a tocar na rádio Escola? Eu não levei a música a rádio Escola. Ele disse liga. Eu ponho 88.5, lá estava a tocar a música. 

Eu disse meu Deus, tenho de ir ter com essa pessoa que levou essa música aí, pelo menos para lhe agradecer. Quando eu vou para a rádio Escola, quem ia saindo era o Mário Santos, já meu amigo de há bastante tempo, quando fazia o Revista Musical, naquela altura que estávamos todos no mundo, éramos todos artistas e amigos. E eu pergunto tudo bem? Ele diz tudo bem. 

Eu vim cá, tenho uma música “Jesus é a solução” e alguém está a tocar aqui, gostaria de saber quem. Ele pergunta: <essa música é tua?> Eu disse é minha. Ele diz <fui eu quem tirou da Ecclesia para aqui. Nem sabia que tu é que tocaste essa música, mas vou lhe dizer uma coisa, essa música está tão bem tocada que eu até perguntei a um padre: “Padre o quê que achas deste estilo de música?”> A tal música que estava a ser rejeitada no Maculusso e o padre disse: “isso é bom para o desenvolvimento da música cristã”. 

 

Nascimento da Asso-Música

Eu disse muito obrigado e ele depois surge dizendo assim: <o que achas fazer união dos músicos cristãs?> Eu disse a ideia é boa, mas ao invés de união, devíamos por Associação dos Músicos Cristãos de Angola. Ele disse disse então fica Associação. 

Como tens o microfone da rádio Escola, vai anunciando, o dia 7 de Fevereiro, para nos encontrarmos todos no pátio da rádio Escola e vamos falar sobre a música e vamos construir a Associação. 

Mas essa tal música era tão desprezada, que nem tinha o nome de gospel. O nome era tarde de louvor, música da igreja, tarde de adoração, música sacra. Bastava falarmos destes títulos que estamos a dizer, qualquer jornalista seja da televisão, seja da rádio, desligava logo porque tanto a Palavra de Deus, tanto a tal música, era proibida na rádio e na televisão. 

O Mário Santos fez por aí um mês a anunciar o encontro de todos os artistas, afinal nós não tínhamos noção de quantos artistas haviam. Na nossa cabeça era só que a única artista cristã era a irmã Sofia. Vamos dizer que naquela altura era a única, mas nos anos 80 também já tinha ouvido uma ou duas vezes o grupo do Dodó Miranda, que era os MB Genius. Naquela altura, estava lá com os meus 14/16 anos, vi eles na televisão em gospel, mas um gospel muito bonito. Eram aí uns 6 jovens que estavam a cantar bonito. Mas depois desistiram, o grupo se desfez. Depois ouvi dizer que também, quem estava a tentar nesta área era o Pastor Jack, que lutava para por clipes na televisão, depois o Pastor David Elonga. A irmã Sofia dizem que veio mais tarde. Primeiro mesmo vi o Dodó Miranda com o grupo MB Genius, mas desistiram. Depois dizem que quem estava a lutar era o Pastor Jack e o David Elonga. Não sei quem começou primeiro, mas sei dizer que também estavam lá. Depois é que começamos a ouvir a irmã Sofia. A irmã Sofia é que eu ouvi bastante. Depois mais ninguém. Mas também os estilos que faziam, ainda quem tinha um estilo um pouco americanizado eram os MB Genius. Mas o resto era mais um estilo do norte, eu não sei que nome dar aquele estilo. 

No dia 7 de Fevereiro, que foi o dia do encontro, eu fiquei estupefacto, surpreso, fiquei parvo ao encontrar cento e tal músicos no pátio da rádio Escola. Eu não acreditei porque sabia que não havia mais cantores gospel. Nesse dia, como a minha música já era muito tocada, ouvida e conhecida, fomos fazer a constituição da associação. Constituímos a comissão instaladora. Escolheu-se o Mário Santos como presidente, Paulo Paz como vice-presidente, Jorge Dala como Secretário-geral, porque eram as pessoas que estavam a frente.

 

AF: O Jorge ainda faz música?

PP: O Jorge já não faz música. Desligou-se da música, está mais a cuidar é da família, mas músico, músico para sempre. Fica sempre no sangue. 

Se o Mário Santos não tivesse o microfone, quem queriam por como presidente era eu. Mas também como não tinha muita experiência, preferi ficar como vice-presidente. Depois constituiu-se o Director da Acção Cultural, da Acção Social, os Directores Nacional e Internacional de Intercâmbio, o Director Nacional das Finanças ou da Tesouraria. Quer dizer, fez-se a constituição. Depois fizemos o estatuto então fomos dando passos para a sua legalização e a partir dali, demorou 2 anos para nos legalizarmos. Íamos de cima para baixo, nos davam voltas. Enquanto íamos nos legalizando, nós atrevidamente íamos realizando as nossas actividades como associação. Como quem diz, vocês lá estão a atrasar, nós aqui anos avançar, o nosso Deus é dinâmico. E prontos, lá naquelas nossas actividades é que surge uma oportunidade, ali começa a revolução da música gospel, uma oportunidade na LAASP, ex Liga Africana.

 

AF: Em que período?

PP: 2000 a 2001, já que a associação foi constituída em 7 de Fevereiro do ano 2000. O senhor Carlos Araújo, torna-se director da LAASP e ele queria que todos os dias houvesse actividades e que cada dia fosse um ou dois grupos. Nós ouvimos aquilo, fomos lá para termos a nossa oportunidade com a nossa organização, que era a Associação dos Músicos Cristãos de Angola. Ele nos aceita e faz uma contra proposta. Vocês vão ter vosso espaço aos domingos das 14 horas às 18 horas, mas tem de terminar as 17 para dar lugar a outros para arrumarem para as 20 horas também darem os seus teatros e tal. Mas como vocês, grupo gospel, aliás, o nome até não era gospel, grupo da igreja ou artistas da igreja, o vosso período é das 14 as 18. Mas na hora dos outros, vocês não podem deixar nada do que é vosso. E no dia que faltarem de fazer um domingo a vossa actividade, vocês perdem o espaço.

E nós queríamos agarrar aquilo com dentes e unhas. O quê que tínhamos de fazer? Primeiro tínhamos de anunciar para o pessoal vir e pagar bilhetes e nós sustentarmos as actividades e pagarmos o espaço. Quer dizer, nós tínhamos que ir às rádios. E nas rádios e televisão, era proibido. Ano 2000 não se falava da música fora, era tudo dentro da igreja, mal feito, nem tudo, mas a maior parte era mal feito porque diziam desde que é louvor para Deus serve. Eu não me conformava com aquilo porque a Bíblia diz que é para darmos o melhor para Deus. 

Eu pessoalmente, vou para a TPA. Escrevo uma carta, para ir ao Ecos e Factos anunciar que domingo teremos essa actividade. Mas também estava dentro de mim a dizer: meu Deus, então se essa gente basta ouvir dizer música da igreja ou qualquer coisa de igreja dão corte, vou falar o quê? 

Vou ter com a Maria de Lurdes. Eu já tinha uma certa amizade com ela, porque eu já fazia actividades seculares e porque eu já vinha de outras equipes, também já pertencia a associação dos actores, aquilo deu uma certa experiência para levar a Associação dos Músicos Cristãos. Deus me fez passar por isso para ganhar experiência.

Vou ter com a Maria de Lurdes e digo, Maria de Lurdes temos uma actividade e gostaríamos de anunciar. A Maria de Lurdes pergunta que actividade? Naquela atrapalhação e porque nesses anos quando se falasse uma palavra inglesa o angolano estranhava, é que me vem a palavra gospel. Digo vamos ter um concerto gospel. Ela pergunta gospel é o quê? Naquela altura Deus é que estava a me colocar tudo na boca. Eu disse gospel, é concerto de música. Não falei da igreja, falei concerto de música. Ela disse gospel afinal é concerto de música! Mas gospel não significa isso, eu só estou a dizer que é concerto de música. Então ela diz está bem, no dia X vem.

Meu irmão, se me deu oportunidade, lá disseram, na LAASP, que todos os domingos vocês têm de estar, eu todos os domingos tinha de estar na televisão para anunciar. Dentro da televisão eu não podia trocar o assunto e dizer é música da igreja, senão… haviam logo de dizer esse nos traiu. Ali falou que é gospel e aqui já está a falar que é… então, fui continuando sempre a falar. Caros irmãos, nós vamos ter um concerto gospel na LAASP, ex Liga Africana, vai estar presente o artista X, o concerto será as X horas, por isso venham ter connosco, vão gostar, para amenizar as almas e tal e tal. A actividade era aos domingos, mas eu tinha de ir falar todas as sextas-feiras.

 

AF: A televisão deu essa oportunidade?

PP: Deu a oportunidade de falar, mas aquilo era uma cunha, praticamente com a Maria de Lurdes. Porque a própria televisão estava nem aí. A Maria de Lurdes era a Directora do Ecos e Factos e a Sandra Mainsel… Essas  duas é que me apoiaram. Se não fosse a Maria de Lurdes, era a Sandra. Então, é que eu fui sempre anunciando, quer dizer, sexta-feira já estou a anunciar que domingo teremos isso e domingo a gente está na LAASP a fazer a actividade. Pegávamos os artistas, fazíamos um plano. Nesse domingo vai ser o fulano e o sicrano a cantar. No outro domingo o sicrano, sicrano é que vão cantar. Quer dizer, era agenda. 

Meu querido irmão, fiz 3 anos, todas as sextas-feiras eu estava na televisão a falar da música gospel. O quê que isso deu? Isso moveu os próprios artistas a fazerem os vários estilos no género gospel e ao mesmo tempo a irem para as rádios fazerem os anúncios. Nesses 6 anos, de tanto ver, quem nos chama pela primeira vez, estou a demorar muito aqui, porque é aqui onde começa a revolução, quem nos chama foi o Janela Aberta. Nós estranhamos. Um Janela Aberta vai chamar um grupo da igreja para falar de música gospel? Isso é muito! Porque esses programas não davam confiança. Era no tempo do Mário Vaz, no tempo do Sérgio Rodrigues, da Analtina Dias. Nesse dia, chamei os da direcção, seleccionamos.

 

AF: Nesse período já estava a presidir a associação?

PP: Nesse período não estava. Estava sempre como vice, mas na verdade eu é que levei a associação, porque o presidente por causa do seu serviço, resguardou-se. Quem estava no volante a levar tudo era eu. Eu estava a fazer o papel do presidente. 

Foi ali que eu chamei, fulano e fulano vão cantar, fulano e fulano vão ao debate. É assim, nós no debate, não vamos falar como cristãos coitadinhos. Não vamos dar essa imagem ao país. Aliás, a primeira cassetada é que mata a cobra. Nós temos de ser pessoas normais, porque até, o cristianismo é dentro do nosso coração e nós temos de dar uma…, epa somos normais. Todos concordaram. E não é preciso falar baixo, falar com pena, parece um coitado, não. Falem normalmente, para quê? Para o programa estar quente e logo que eles virem que o programa está quente, então vão nos convidar mais vezes. Essa foi a combina. Quando chegou o dia, tornei a reforçar. Fomos para lá fazer esse debate. O tema era “A importância da música gospel em Angola”.  

 

AF: Lembra-se quem esteve consigo nesse programa?

PP: O evangelista Serafim, o irmão Nelito, eu, já não estou a ver, mas parece que éramos 7 ou 6 pessoas. 

 

AF: Todos da Associação?

PP: Realmente éramos todos da associação e pessoas que se envolviam seriamente no gospel. Foi um debate tão quente, que afinal de contas, o próprio país…, nós recebemos o feedback nos telefonemas que estavam a fazer, a dizer que de todos os programas do Janela Aberta a que assistiram, esse é um dos melhores. Outros a agradecerem pelo facto da TPA chamar essas pessoas. Os próprios da TPA também gostaram, tanto quanto, ao fim do ano, a TPA passa os melhores programas do ano e este foi  escolhido e se fez a reposição. A partir dali, foram nos convidando vezes mais vezes e tudo passava pela associação e eu ia convidando as pessoas. Mesmo o Luís Capoco também já foi chamado, a maior parte dos artistas foram chamados por mim para irmos lá debater e não só na TPA, na Tv Zimbo e noutras estações.

Na Tv Zimbo tivemos um entrave pelo Salsa. O Salsa é o responsável da música na Tv Zimbo, ele é muito dinâmico e estava a debater comigo, epa a música gospel não é assim e eu fui lhe falando como é a música gospel e tal. Ele estava a dizer que a música gospel é outro estilo, eu fui falando… Mas ele foi dormir, depois disse o Paulo tem razão e chamou-nos para ir lá debater. Nessa parte da música, muitos pensam…, que o gospel é…, Os escravos americanos que inventaram a tal música gospel, a palavra gospel significa Evangelho em português… Nós aqui devíamos dizer música evangélica. Mas como naquela altura bastava ouvir evangélica, algo ligado a igreja eles davam corte, é por isso que Deus colocou-me na boca para dizer música gospel. 

O Guy Destino, fui ter com ele uma vez, era para ingressar na associação, para dar uma força à associação e eu falei em palavra gospel, ele até sentiu-se aborrecido. Não, nós somos angolanos, falamos português e nós temos que usar a palavra evangélica, não é gospel. Gospel é para os americanos.

Eu disse disse meu irmão, a palavra gospel cá em Angola, implementou-se por isso e assim assim. Já fez tantos anos que agora, se não falares concerto gospel, se não puseres essa palavra gospel, você não vende, as pessoas que você quer não veem.

 

AF: Já estamos a olhar para o ano 2005/2008?

PP: Sim. Já estamos nesses anos. A partir dali, eles todos foram obrigados a falar gospel. A midia tem tanta força, que aquilo foi. 

Mas é para dizer, ainda com relação a esses artistas, uma coisa que me põe as vezes, um pouco triste, é que o meu nome foi tão sujado por um indivíduo que nem adianta falar o nome, por inveja. Era o tal Director da Acção Cultural. Eu como vice-presidente manda-lhe fazer algo, não fazia ou fazia com moleza. Como eu era tão dinâmico, conseguia fazer tudo, volta e meia já fiz, ele chateava-se. O vice-presidente já fez, mas a responsabilidade era minha! Eu dizia, meu irmão vejo que estás a atrasar, epa temos que adiantar com as coisas. Ele foi sujando o nome do Paulo Paz, porque o Paulo Paz é um gatuno, é mentiroso, e não sei o quê. Quem consegue confirmar se o Paulo Paz é isso, é aquela pessoa que anda bem comigo. É que vai ver, mas porquê que este homem é assim tão sujo?

Andou a sujar tanto o nome de Paulo Paz e que pessoas que queriam vir na associação não conseguiram vir, porque eles se desmotivavam logo ao ouvir dizer que aquela associação é uma associação de gatunos. Gatunos porquê meu querido irmão? Eu sou uma pessoa que trabalha desde os meus 15 anos. Sempre tive metido em negócios, nunca trabalhei por conta de outrem ou conta do Estado. Sempre trabalhei por minha conta, eu viajava para as Lundas, viajava para vários países para ir buscar mercadorias…. Fui construindo a minha vida, fui comprando terrenos, construindo casas, comprando carros. Quando me vissem com um carro, principalmente o último que comprei que era Prado, epa tá a roubar tudo da associação. O Estado angolano nunca deu nem um tostão para esta associação. Nunca recebeu apoios esta associação, nem patrocínios. Única pessoa que apoiou ou patrocinou brinquedos, porque nós queríamos o realizar uma actividade na pediatria do Kilamba Kiaxi…

 

AF: Em que período?

PP: Estou a falar dos anos 2011, é o senhor empresário Teka Garcia da empresa Sincape. Para quem ouve a rádio Escola, o programa Harpas, nós tocamos sempre nesse nome. Este é que apoiou com brinquedos por duas vezes. Quando fomos a Huíla, fazer o empossamento da associação e quando fomos a pediatria do Kilamba Kiaxi. Nunca mais vi nada. Nem do Estado, nem de empresários. Nós estamos a andar, trabalhando com as nossas forças, eu pessoalmente é que tiro dinheiro da empresa Paulo Paz comercial e a gente aí realizando actividades. Quase todas as actividades, quem apoia é a própria empresa Paulo Paz comercial. 

 

AF: Antes de olharmos para o estado actual da associação, eu queria que neste aspecto histórico que é de muita importância para que as pessoas compreendam, depois da LAASP, daquele espaço que foi conquistado, o que é que a associação fez?

PP: Graças a Deus. Na verdade, o que a associação andou a fazer, é uma série de actividades. Campanhas de prevenção rodoviária, ofertas de bens alimentares e não só, à camada desfavorecida. Uma série de actividades que andamos a fazer, feiras gospel, andamos a fazer conferências, palestras. Se hoje a música gospel ficou assim, são também as nossas palestras. As nossas palestras tocavam muito na qualidade da música gospel.

Para vos ouvirem, vocês têm de ter qualidade. Na instrumentalização, na letra, na melodia. Nós sabíamos quando estávamos a dar as palestras, que uns anos mais a frente, haveriam de vir músicas com qualidade. E posso dizer que até hoje, não digo que atingimos o ponto certo. Nem no meio estamos. Nem no meio estamos porque ainda falta muita qualidade. Há mais quantidade do que qualidade. Uma ou outra é que tem qualidade. Vamos dizer um Bambila, Lioth Cassoma, algumas do Guy Destino, Miguel Buila, outros que não me vêm a mente. O Bambila foi um dos artistas que nasceu na associação. A irmã Joly também nasceu na associação. Foi a associação que andou a lhes levar a midia, naquela seleção que íamos fazendo tu vais cantar e tal, eles foram aparecendo e com as suas próprias forças, foram remando e subiram.

 

AF: A associação começa por volta de 2000 mais ou menos, com cerca de 150 membros que aderiram a primeira chamada. Quando estávamos nos anos 2010/2011 o número cresceu? 

PP: O número cresceu porque depois tivemos um período da expansão da própria associação. Fomos expandido a nível de todas as províncias do país. Quer dizer, nesse momento a associação está a nível de todo país. Cá em Luanda, está ao nível da província e dos municípios. Nós, em todos municípios de Luanda temos representada a nossa direcção. 

Foi crescendo que nós chegamos a quase quatro mil ao nível nacional. É uma organização, que realmente, não sei o quê que se passa. Na verdade se fôssemos unidos, mais unidos, não sei como é que isso seria. 

 

AF: Para si qual foi o ponto mais alto do trabalho da associação?

PP: O ponto mais alto do trabalho da associação, foi quando estávamos a passar mais em televisões e rádios. Nós, constantemente, tínhamos noticias das nossas próprias actividades. Tínhamos também, debates em rádios e televisão. Ali a associação era mais falada e ao mesmo tempo também, vinham mais membros à própria organização. 

 

AF: Já foi trabalhando fazendo o papel de presidente, mas quando é que se torna presidente?

PP: Torno-me presidente, quando o próprio Mário Santos que era presidente, repara ao nível do seu trabalho, estava a empatar a associação. Quer dizer que ele sentiu-se…, eu não posso empatar a associação e porque eu ainda vou ter de pedir um tempo de descanso para poder fazer… Ele tinha coisas a fazer na vida. Nós fomos ao notário produzir um documento, um credencial que me passava a presidente. Eu tenho esse documento. A partir dali, eu assumo o posto de presidente.

 

AF: Isto em que período?

PP: Isso, mais ou menos nos anos 2008/2009. A partir dali assumo isso e estou até hoje porquê? Estou até hoje, não é minha vontade de ficar. É que, reparei que há um período de 3 anos que eu também larguei a associação por causa de calúnias. Calúnias que o Paulo Paz está ali por ambição e não quer dar o lugar aos outros.

 

AF: Isso nos tempos áureos da associação?

PP: Isso é verdade. Então, a partir dali, é que eu com a vontade de Deus, dissemos vamos largar e deixamos a responsabilidade ao Secretário-geral. 

 

AF: Na altura quem era?

PP: Jorge Dalas. 

O Jorge Dalas foi chamar todos que eram contra o Paulo Paz e contra a associação. Lá, epa o Paulo Paz já não está, o Paulo Paz saiu. A partir dali, gostaram, lá fizeram a sua constituição, as suas reuniões, parece que reuniram umas 3 ou 4 vezes e a partir dali não conseguiam levar a associação. Não conseguiam trabalhar como manda a lei, na associação. O nome da associação estava a cair. A associação praticamente estava a desaparecer, eu também já não quiz regressar mais.

Foi assim, que o presidente do conselho fiscal que é o Serafim Alfredo e outros artistas, repararam que quando a associação fizesse actividades e fosse falada, as actividades gospel no país iam sendo faladas também. Aquele vai fazer, lá outro vai fazer, o fulano está a fazer. Mas quando a associação deixa de fazer e ser falada, as actividades também baixavam. Então isso não era bom. 

Quando eu largo a associação e eles retomam e não conseguem levar a associação, a arte gospel também estava a cair. 

 

AF: Isso foi em que período?

PP: Já estamos a falar nos anos 2012/2013.

 

AF: Quando é que o presidente retoma as actividades?

PP: Eu retomo depois de 3 anos. Eu dei mesmo 3 anos para fazer ver nas pessoas, que o Paulo Paz não está aí atoa. Não é vontade do Paulo Paz estar na associação. É a vontade de Deus. E porque eu até, sei que este projecto é mesmo projecto de Deus. Se lembra quando eu falei, na minha igreja, estava a perguntar onde é que eu tinha que estar, então eu orei a Deus na igreja, antes de termos a própria organização e a voz me diz que terás de estar no ministério de louvor. E no ministério de louvor eu orei. Então Pai, se eu quero estar no ministério de louvor, eu quero ser alguém neste país. Eu quero desenvolver este louvor. Só orei, nem sabia se havia de acontecer. Porque eu até tinha acabado de me converter. 

Avançando, como é que retomo. Dei esses 3 anos para fazer ver as pessoas que associação precisa de Paulo Paz. Depois veio o Kiala, epa meu irmão, comé, não vamos retomar isso? Eu disse epa meu irmão, vamos dar mais um tempo, até Deus permitir que eu retome. E as pessoas foram pedindo. Paulo Paz volta e eu não, já não quero, já estão lá outras pessoas. Paulo Paz a associação está a morrer… Depois é que vem uma voz e me diz: tens que retomar isso porque coisa de Deus não pode morrer, coisa de Deus não pode acabar. Meu querido irmão, eu nesta organização não estou por mim. Eu estou pelo trabalho do Senhor. Pelo louvor neste país. 

A partir dali, é que um grupo de cinquenta e tal artistas, reuniram no Kilamba Kiaxi, dirigido pela delegada Dina, com o tema “O estado da Asso-Música”. Naquela reunião, saiu que o Paulo Paz tem que voltar. Todo mundo tem que assinar. Eu tenho também este documento. Eles pediram para que o Paulo Paz voltasse e vieram me entregar.

Paulo Paz, cinquenta e tal artistas dizem que tens de voltar. Olhei pra aquilo, ouvi pela confirmação de Deus, disse vou voltar. O próprio presidente do conselho fiscal também me deu muito solavanco, eu disse vou voltar. Então, é que vou novamente para a conservatória e digo que eu tivera largado a associação, mas o pessoal diz que tenho de voltar e está aqui o documento. Foi que ela disse tu já tens o documento de presidente, já tens o documento que estão a dizer que é…, então volta. E eu voltei. Agora, eu luto sempre para que os artistas sejam unidos. Porquê? Tem que haver essa união porque nós sabemos perfeitamente que noutrora, no tempo de Moisés, os levitas eram unidos, os levitas eram orientados por Deus. Os levitas obedeciam as regras de Deus. Os levitas eram disciplinados. Nesse país, os levitas também têm de ser unidos, disciplinados e ao mesmo tempo obedecer as regras e leis do Senhor. Se nós não formos unidos, primeiro não teremos era nem beira, não seremos respeitados, nem pelo Estado nem pela sociedade. 

O primeiro objetivo da organização Asso-Música, que faz com que ela surja, é evangelizar através da arte gospel. Segundo, é unidos próprios artistas. Para estarmos juntos, unidos e andarmos, termos uma só direcção e um só objectivo. Terceiro, fazer com que os artistas tenham aquela amizade, aquele amor ao próximo e que todos se conheçam, que todos se ajudem. Porque se um tem o estúdio e eu não tenho o estúdio, vai me ajudar a gravar. Se um sabe tocar e eu não sei tocar, vai me ajudar. Esse é um dos objetivos.

 

AF: Acha que todo esse conflito que se viveu dentro da associação está ligado a questões financeiras?

PP: Na verdade, está ligado a questões financeiras porque eles pensavam que o Paulo Paz estando na cadeira da Asso-Música está a ganhar muito dinheiro. O Estado está a dar dinheiro ao Paulo Paz e porque, o que lhes confundiu mais, é ver as estruturas que o Paulo Paz tem, os carros.

 

AF: Associavam a vida privada aos trabalhos da associação?

PP: Pronto. Tocaste lá. Eles associavam a minha vida privada que já comecei oh… Eu já tive essa vida antes de se formar a associação e antes até de ser cristão. Cada vez que eu comprasse carro, eles pensavam que está a vir da associação. A associação não tem dinheiro. E porque até uma associação, não é uma produtora, não é uma empresa. Uma associação é simplesmente uma instituição que defende os direitos do artista. Tanto direitos autorais, como direitos  sociais. Quer dizer, a associação é que tem essa força. 

Mas se a associação ajuda por exemplo, apoia para fazer concertos do seu próprio membro, isso já, é uma coisa particular do próprio membro.

 

Clique aqui para ler a segunda parte da entrevista:

ASSO-MÚSICA PODE PASSAR À ÓRGÃO REGULADOR DA ARTE GOSPEL

Clique aqui para ler a terceira parte da entrevista:

PAULO PAZ DIZ ESTAR ABERTO A CRÍTICAS E ATÉ PARA CEDER O LUGAR

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Gil Lucamba

Jornalista, Gestor de Mídias Sociais. Fundador do portal de notícias Arautos da Fé.

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