Monte Sinai: “desde os primórdios é uma escola de música de excelência”

Quando a história do grupo coral Monte Sinai é contada, Maurício Joaquim Armando, é um dos protagonistas que se destaca, por ter liderado o grupo de 90 à 2015.

Em vésperas da comemoração o 30º aniversário do coral, a se realizar no próximo dia 10 de Março no CCB, em Luanda, o antigo dirigente falou com o portal Arautos da Fé e fez revelações inéditas que marcam a trajectória do grupo.

 Disse que liderou o grupo liderou com muita sapiência e humildade, o que foi facilitado porque os os coristas “eram muito participativos, tinham espírito de entrega”. Destacou o tralho feito por jovens como o saudoso Lorito e afirmou que coristas de hoje estão “apenas” a seguir o legado daqueles que foram bons mestres que passaram pela Monte Sinai. 

Coral Monte Sinai no ano 92

Coral Monte Sinai no ano 92.

Quando é que entrou para o grupo coral Monte Sinai?

Entrei para o grupo coral Monte Sinai numa fase em que a igreja estava praticamente a surgir. Quer dizer que foram quatro anos depois da igreja ter se emancipado na categoria de igreja. Eu entro como corista e no mesmo ano fui indicado como coordenador do coro da igreja de Monte Sinai. Antes eu havia recebido um testemunho de um irmão e que depois daí, tive mandatos sucessivos, isto é, desde 1988 até 2015.

Depois fui presidente de culto e música da mesma igreja e que ajudou bastante a trabalhar com o grupo e com muitas gerações. Quero trazer aqui a memória do Job um corista, cantava muito baixo e bom baixo. Também quero trazer a memória de um jovem corista Rodrigues, cantava um bom tenor. Estes, a par do mestre Lorito, foram os precursores do grupo que nós dirigimos. Era um grupo muito unido, muito bom.

Quando é que aparece a nova geração que agora está a liderar o grupo? Que, exactamente por qualquer razão, acabamos por ficar sem mestres e entendemos que tínhamos que apostar na nova geração, na juventude. Já na terceira geração, apareceu o Fiél, o Muhongo e depois o Nelito também chamado de Nelas Bronze, o Alves, que chamam de Gods Love. Na altura, estava também um jovem que chamam de Papiloy. Nós entendemos trazê-los para a escola de música para aprendizagem da música porque estávamos carentes de mestres.

Entendemos, na altura eram crianças, apostando neles, a igreja havia de ganhar novos mestres. E hoje, são o que são, porque entendemos que tinham que passar numa escola de formação e eles como tinham vontade de trabalhar, alguns ficaram pelo caminho, como é o caso do Papiloy, desistiu. Depois, tivemos que enquadrar na área de música um jovem chamado Gegé e estes dois, ficaram pelo caminho. Mas o Gods Love, Nelas Bronze, o Detetive – que é o Fiél, com força de vontade, estão a conseguir aguentar o barco até hoje.

Coral Monte Sinai louvando a Deus/1989

Coral Monte Sinai louvando a Deus/1989

Lembra-se o ano em que entrou no grupo?

Lembro exactamente. 90. Eu disse quatro anos depois… a igreja foi emancipada em 88, mas antes fazíamos parte como centro. A igreja, veio da igreja de Calemba. Nós éramos centro e viemos cantando já a partir da igreja de Calemba. Depois da emancipação em 88, em 90 eu tomei a liderança do grupo coral, como coordenador. Porque nós já cantávamos antes de ser igreja, éramos coristas e 2 anos depois, estava o irmão Eduardo João António, que também já não está na igreja de Monte Sinai, está na igreja Timóteo Baía. Era o coordenador de quem recebi o testemunho. De 90 até 2015 pegamos o barco. Foi uma fase muito boa. Mas difícil também, porque era uma fase de guerra. Mesmo nessa fase de conflito armado, nos conseguimos sair com o grupo de Luanda para fora, no interior.

Em acampamentos?

Saímos em acampamentos com o coral. Fomos a Kibala por exemplo, em tempo de guerra. Um acampamento que tenho certeza, até nos dias de hoje se fala. E nesta fase, o Fiél estavam a começar a aparecer. (Eram) jovens da escola dominical o Nelas Bronze e muitos outros que agora estão no grupo coral. Mas é um grupo que liderança como muita sapiência e com muita humildade e também, os coristas eram muito participativos, tinham espírito de entrega e tínhamos disciplina naquela altura.

Tínhamos disciplina que regulava a participação no grupo. É só para dizer, que naquela altura ninguém podia cantar sem que fosse aluno da escola dominical. E a entrega era maior. Hoje os que estão a liderar a igreja, nos casos  das actuais guias leigas, dos guias leigos que estão agora em frente da igreja, foram todos coristas naquele tempo. E eram coristas activos no serviço, na missão de Cristo.

 

Acampamento do grupo na zona do km 30 em Luanda

Acampamento do grupo na zona do km 30 em Luanda.

O ensino da Bíblia era um requisito fundamental naquele tempo?

Era uma obrigação. Enquanto era coordenador do grupo, ninguém podia ser corista sem que fosse estudante da Bíblia, através da Escola Dominical. Primeiro tínhamos que ir para a Escola Dominical, depois é que íamos para o grupo, para entrar (na igreja), para cantar. É só para ver, que o grupo ensaiava às sextas e aos sábados, mas no dia seguinte, na manhã de domingo, quem não fizesse parte da escola dominical, ainda que tivesse ensaiado, não tinha direito a cantar.

Naquela altura vocês já pensavam em gravar o disco e levar o nome do grupo para mais longe?

Já. Naquele tempo nos já tínhamos projectos ambiciosos. Realmente nós já pensamos em gravar o disco. Já tínhamos dinheiro para gravar o disco em 92. Naquela altura já tínhamos 3 mil dólares, era dinheiro mais que suficiente para gravar o disco. Infelizmente, encontramos uma pessoas, até é um irmão da igreja, que não importa aqui citar o nome, não é da igreja Monte Sinai, mas é da Igreja Metodista e que era bom músico, era produtor, tinha um estúdio. Mas ele ficou com o dinheiro e acabou por desaparecer com o dinheiro. Tínhamos tudo para ter um disco naquela altura, os ensaios já estavam sendo preparados, praticamente, da nossa parte como coro, estava tudo preparado. Só faltava a parte do mestre lá do estúdio, que acabou por ficar com todo dinheiro que tínhamos e que tínhamos conseguido com muito sacrifício.

Francisco Kitekulo, Joaquim Arsénio, José João (em memória), Maurício Aramando, Domingos Tomé, Martinho Cassinda (em memória), a volta da mesa, no aniversário do coral em 92

Francisco Kitekulo, Joaquim Arsénio, José João (em memória), Maurício Aramando, Domingos Tomé, Martinho Cassinda (em memória), a volta da mesa, no aniversário do coral em 92.

O grupo vai comemorar agora 30 anos com um concerto no próximo mês de Março. Quando olha para esses 30 anos, o que é que vê no coral, o quê que mudou?

Nós estamos em etapas diferentes. A igreja de Monte Sinai por si só tem várias etapas. Temos a fase de surgimento como igreja, que é a fase da evangelização. Foi liderada por um grupo cujo líder já é falecido, Martinho Cassinda. Que Deus o tenha. E tem a fase da implementação da estrutura física da Igreja de Monte Sinai, que é a construção do templo, das estruturas que o ladeiam. É o caso do colégio e outras estruturas mais. E tem a fase musical, onde a Monte Sinai… por isso, desde a sua existência, a música foi sempre a paixão e para dizer que a Monte Sinai desde os primórdios é uma escola de música por excelência.

Nessas fases que citei, a que mais relevantes na vida da juventude, sobretudo nos dias de hoje, é exactamente a fase musical. Como disse, a primeira fase foi liderada pelo senhor Martinho Cassinda, a fase estrutural foi liderada por mim. Em termos de estrutura, aliança de projectos, com o irmão Domingos Francisco. E a fase da música era liderada pelo irmão Lorito Domingos, que também tem outros seguidores. Está o “Detetive”, o “Nelas”, o Adriano, o Alves. Estes estão a aguentaram a máquina no campo musical.

Bem! O quê que me vem na alma? Vêm grandes recordações. Me vêm na alma a imagem do irmão Lorito Domingos que muito trabalhou para aquilo que é o coral nos dias de hoje. Um irmão incansável, inteligente. Um irmão que, nos dias de hoje, a nível da Igreja Metodista e sem descurar os outros irmãos fazedores de música, creio que se este irmão tivesse em vida, mereceria um prémio qualquer da Igreja Metodista. Não digo da igreja Metodista de Monte Sinai, mas digo da Conferência. Porque ele era intérprete, era um indivíduo que fazia música, cantava, era compositor. Um mestre por excelência. Tenho certeza que muitos que estão na igreja de Monte Sinai, cantando nos dias de hoje, ensinando nós dias de hoje, inspiraram-se no irmão Lorito. Pés embora, tenha havido também outra mão que exigiu paciência, mas o irmão Lorito pode ter sido a fonte de inspiração.

Russo, Maurrício Aramando e Tomás Domingos Lorito (em memória)

Russo, Maurício Aramando e Tomás Domingos Lorito (em memória)

Mas a vida é assim. Passou a fase do irmão Lorito, surgiu a outra e essa que é agora do Fiel. Passou o irmão Roger, no meio de tudo isso para também dar um aprendizado na fase em que o irmão Lorito, houve um tempo em que ele não podia dar sequência do trabalho, por razões administrativas da própria igreja. Houve uma fase em que ele viveu um processo disciplinar e não podia dar continuidade e nós queríamos dar continuidade ao projecto do grupo coral, então foi ali onde aparece a ideia de trazermos a nova geração. E essa nova geração trabalhou com o irmão Roger que fez a ponte na fase em que essa geração estava ainda a aprender música. Com a saída do irmão Roger aí aparece essa geração.

Desde a fundação da igreja Monte Sinai, a igreja nunca cantou mal. Agora, é verdade que existem fases de estilos musicais. Há um estilo próprio de música sacra e a música que o irmão Lorito tinha, mesmo do seu jeito, o se estilo era…, eu não sou músico mas consigo interpretar, mas era uma característica somente ligada a área do Cuanza Sul, e também um estilo que só o irmão Lorito e um pouco o irmão Burica, pegava. Comparando com o estilo musical dos dias de hoje, é diferente, mas não perdeu-se a meada de ter um coro excelente. São novos tempos e estamos com outra tonalidade.

Podemos dizer que a música na Monte Sinai nunca este mal. Sempre esteve na mão de cima e com essa juventude, sabe que cada tempo é um tempo, a juventude investiga muito, tem muito mais tempo, tem todo aparato tecnológico a disposição, não tem como defraudar a obra deixada por muitos. Creio que apenas estão a seguir o legado daqueles que foram bons mestres que passaram pela Monte Sinai. Deixa-me dizer, que mesmo no tempo em que era Centro Monte Sinai, a igreja sempre cantou bem a par da igreja de Calemba, a igreja mãe.

Sempre tivemos bons mestres. Agora, não posso dizer que os dias de hoje são melhores. Mas são bons. Só podem ser melhores porque são pessoas incansáveis. Digo que nos dias de hoje, a Monte Sinai, a nível da Conferência, o que tem de grande referência, é a música.

Eduardo João Antunes (antigo maestro e coordenador do grupo), João Manuel da Graça, Francisco Manuel Kiteki e Teresa Zongo

Eduardo João Antunes (antigo maestro e coordenador do grupo), João Manuel da Graça, Francisco Manuel Kiteki e Teresa Zongo.

Qual é a mensagem que deixa para todos os membros do coral Monte Sinai.

Primeiro, a par da música buscarmos a fé. Trabalhar muito com a Bíblia, fazer treinamento bíblico para que possamos resistir às tentações… portanto, o que eu deixo aqui para, sobretudo os dirigentes musicais, têm de estar bem preparados doutrinaria e biblicamente.

Outro elemento é, que os dirigentes da igreja Monte Sinai, tenham mais atenção em relação ao grupo coral. É um grupo que desperta muita atenção, é um grupo que todo mundo quer ver a cantar, é um grupo que todo mundo gostaria de lá estar a cantar, é um grupo que nos dias de hoje, é postal de vista para igreja. Tenho estado a apelar para muita gente em off, que já é hora de a igreja pelo menos criar uma menção honrosa para o grupo coral. Porque já deu muitas alegrias. Tem dado alegrias. E tenho certeza que vai dar mais ainda. Eu confio nos jovens que estão a liderar o grupo, que estão em frente da comissão técnica do grupo, nos jovens que tem estado a trabalhar arduamente no grupo. Pelo menos para criar um incentivo ao grupo, isso faz muito e muito bem. Aumenta o astral do grupo. Não é porque eles precisam, se calhar não estão a pedir, mas de uma forma administrativa, de uma forma espiritual, é importante que se enalteça o papel, a tarefa e o trabalho que o grupo tem estado a fazer em prol da igreja.

Maurício Armando, em 1992

Maurício Armando, em 1991

Cantar é evangelizar. E este grupo tem estado a levar muitas almas para a igreja de uma ou de outra forma, por meio da música. Logo, o grupo que dirige a igreja, deve manifestar-se para que este grupo tenha coragem, tenha firmeza, de que não, o nosso trabalho é visto. Cá de fora, nos vimos que é um grupo com muitos valores é importante que o pai que está com o grupo valorize esse grupo cada vez mais. Mas não estou a dizer que a igreja não está a valorizar, não é isso. É importante que se realce cada vez mais o seu valor.

Temos muitos grupos musicais, mas manter o tempo de vida que o grupo tem, sem baixar de qualidade, sem baixar o número de participantes e manter sempre o seu perfil, é obra. É obra. Sem medo de errar, desde a existência da igreja de Monte Sinai, o Monte Sinai em termos de música só somou vitórias. Apesar de que não estamos aqui em desafios em termos de coros, mas na praça musical, da música gospel metodista, a música de Monte Sinai sempre somou vitórias. A Catumbela foi uma igreja que cantava e encantava. Mas quando aparece a igreja de Monte Sinai, a Catumbela é o que é hoje. Os Mestres passam, mas os que vêem pegam sempre na mesma meada e nunca baixam. Mas é sempre para subir. Então o meu apelo vai nesse aspecto, que a igreja tenha mais atenção para este grupo, que é o grupo que realmente da muitas glórias a igreja.

Maurício Armando, antigo coordenador do coral Monte Sinai.

Maurício Armando, antigo coordenador do coral Monte Sinai.

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Gil Lucamba

Jornalista, Fundador e administrador do portal de notícias Arautos da Fé.

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