Há mais de um século Angola só recebe missionários – líder juvenil quer mudar paradigma

Abraão Cassinda, da JOCUM Afeka, defende uma mudança de paradigma e revelou que a sua organização está a estabelecer uma base missionária em Luanda para responder os desafios missionários transculturais. Em entrevista que concedeu ao portal Arautos da Fé, falou de outras iniciativas da organização e aconselhou aos jovens a usarem de sabedoria no relacionamento com os mais velhos.

Abraão Cassinda

Abraão Cassinda

Gostaria que fizesse um resumo da vossa visão para Angola?

A nossa visão para Angola é muito simples: obediência ao chamado de Deus para as nações. E como Angola, nós entendemos que a mais de 100 anos temos recebido o Evangelho, mas dificilmente saem missionários para outras nações. A nossa visão é uma iniciativa de missões angolana, para outras nações, tanto que nós estamos focados em povos não alcançados de outras nações e a construção de uma base missionária em Luanda que responde a missões transculturais em outras nações e outros povos.

A missão precisa de vários profissionais, de vários fóruns, sobretudo linguistas, pesquisadores de línguas porque há todo um processo de conhecimento de línguas, tradução de Bíblias nas línguas dos povos e como nação Angola, queremos nos engajar num esforço internacional que já existe, é a Tarefa Remanescente – em que organizações missionárias internacionais estão conectadas nesse esforço conjunto. Todas elas estão envolvidas num plano para que até 2024 todas as famílias da terra tenham acesso a uma Bíblia na sua língua. Como maior movimento juvenil de missões mundiais, não estamos indiferentes a isso. Mas como nação Angola, nós queremos estar mais engajados nisso, porque somos uma nação que trabalhamos mais para dentro do que para fora. 

Vocês querem construir uma escola?

Exacto! Nela teremos o método de abordagem educacional por princípios EP da ONG Actuação Voluntária, nossa parceira. A construção dessa escola é no bairro Bita Tanque, já existe um terreno. Nesses últimos dois anos trabalhamos na compra do terreno e nesse momento estamos a vedar e a construir o tanque. É um trabalho que estamos a desenvolver localmente. A missão é tanto local quanto global. Nós não podemos só ficar no global, enquanto localmente não desenvolvemos nada. Então, a nível local estamos focados na construção dessa escola, que na verdade vai ser um centro de discipulado infantil onde as crianças chegam e todo processo académico vem junto com o processo de crescimento espiritual e tudo mais.

Queremos ter e estamos a recrutar professores missionariis, aqueles que estão dispostos a viver em tempo integral cuja missão é mesmo servir nessa area de educação como professores e estamos em crer e o Senhor já nos tem dado essa visao, junto a visão oramos que recursos venham então para darmos os passos subsequentes dessa visão.

A JOCUM está espalhada por todas as províncias?

Dentro da JOCUM, vou dizer de uma maneira mais simples: ninguém diz a ninguém o que tem que fazer. Somos desafiados a ouvir a Deus e a ir para o lugar onde Deus orienta. Nesse contexto, já existe JOCUM em sete províncias de Angola e só recentemente chegamos a Luanda, porque também só recentemente tivemos esse chamado para esta localidade. Tem uma base de treinamento no Huambo, uma em Benguela, também estamos no sul do país, no Cunene, tem uma base na Huíla. Cada base da JOCUM tem um foco diferente, uma estratégia diferente mas todos estamos a trabalhar na mesma direcção.
A JOCUM não vai necessariamente se espalhar em todas as províncias de Angola mas, a influência, a medida que vão chegando mais jovens, que vão se juntando a esse movimento, talvez isso isso aconteça. Mas o nosso desafio é ouvir a Deus e ser orientado por Deus.

Quando se fala de JOCUM em determinados lugares, alguns líderes pensam que vocês querem, vou usar a expressão roubar os jovens…

As pessoas são livres de escolha e pensamento. É lamentável pensar-se assim da JOCUM porque a Palavra diz pelos frutos conhecereis a árvore e os anos que a JOCUM está em Angola, os pastores conhecem os frutos que a JOCUM tem dado. Nós somos uma organização séria, mesmo existindo a menos de 50 anos, em vários lugares do mundo os nossos valores são muito sérios. Então, é lamentável pensar-se assim da JOCUM porque o que a JOCUM dá é ajuda aos jovens para voar mais alto.

As igrejas são nossas parceiras. No Reino de Deus não temos concorrentes porque o concorrente é o que tira membro dos outros mas nós não temos membros porque nós não somos igreja. Talvez falaríamos de concorrência se desenvolvesse a mesma actividade. Nós temos uma actividade contrária, até porque somos parceiros, nós treinamos igrejas, ajudamos a equipar igrejas com ferramentas técnicas e incentivamos os jovens até nas próprias Igrejas a desenvolverem a missão.

É lamentável dizer assim da JOCUM e acho que essa é uma abordagem que precisa ser mudada, somos reino e como reino somos corpo e dentro do corpo somos membros diferentes, temos que aceitar a nossa unidade na diversidade.

Vocês tem uma base estatística para controlar o número pessoas que participam deste movimento?

Dentro da JOCUM temos sim, mas os projectos da JOCUM são autónomos. Para lhe dar um exemplo, JOCUM Luanda, JOCUM Benguela são projectos autónomos, que têm focos diferentes, mas temos ideia de que ao longo destes mais de 25 anos, muitos jovens de igrejas foram treinados pela JOCUM. Hoje muitos deles são pastores e servem Igrejas, muitos também infelizmente não estão em comunhão com o corpo, mas muitos jovens foram desafiados. Ao longo destes anos a JOCUM tem sido essa ferramenta que ajuda, que auxilia, reforça no treinamento e na expansão do Evangelho. Mas se falar de JOCUM Afeka, nós fizemos anualmente duas a três escolas e cada escola tem em média 20 a 25 alunos que passam pela JOCUM e depois…, nós temos o princípio da emancipação, em que as pessoas vêem conhecer a Deus e vão fazer Deus conhecido.

A JOCUM realiza algum evento que reúne anualmente ou bianual jovens de várias províncias?

Sim. Cada base da JOCUM tem esse foco. Por exemplo, aqui em Angola, JOCUM Afeka nós temos o movimento Kudissanga, já teve a primeira edição e estamos a ver se esse ano ou no próximo vamos lançar a segunda edição. Esse movimento reúne vários jovens com foco em missões transculturais e povos não alcançados. Reflecte-se a questão da mobilização de missionários, do envio daquelas pessoas que querem fazer missões, é nesse momento que fazemos recrutamento, fazemos toda a divulgação. Temos esses congressos, temos esses encontros e cremos que em tempo oportuno estaremos divulgando e se por acaso se alguém ouvir sobre a JOCUM, jovens com uma missão, esses eventos são mesmos para captar recursos humanos para podermos servir juntos na missão.

Abraão Cassinda e esposa Maria da Conceição Cassinda, ambos da JOCUM.

Abraão Cassinda e esposa Maria da Conceição Cassinda, ambos da JOCUM.

A vossa acção se estende até às zonas rurais?

Temos projectos da JOCUM trabalhando entre os povos Rimba, Dimba e Olukuvale no sul do país. Estão a traduzir as escrituras na língua daqueles povos, estão a usar o método oral. Como os bantus são um povo de tradição oral, então o Evangelho se espalha mais rápido pela comunicação oral. Eles fazem gravações em áudio de trechos da Bíblia e essas gravações são difundidas no meio daquele povos. Tanto que, se for para o sul, lá pelo Cunene, muitos povos têm áudios produzidos pela JOCUM, ouvem histórias da Bíblia na sua própria língua.

São trabalhos que a JOCUM tem desenvolvido principalmente em zonas rurais. Só que hoje, o desafio da missão já não é muito para a zona rural. O desafio das missões hoje volta-se mais para as grandes cidades, para as grandes metrópoles porque na periferia, a comunicação é rápida e as pessoas têm acesso a comunicação, têm acesso ao que acontece. Por exemplo, falo concretamente de Luanda. Aqui a comunicação é difícil, os acessos e a maioria dos povos não alcançados de Angola estão em Luanda. Aliás, Luanda tem mais de 30% da população de Angola. Então hoje, em termos de missões, a estratégia que devemos focar é Luanda.

Como é que vocês lidam com as questões culturais, já que temos muitos povos e um músico cultural muito vasto?

São cerca de 60 grupos étnicos diferentes num mesmo país, mas o que a gente faz é aquele princípio que diz: O Verbo se fez carne e habitou entre os homens.
Quando vamos para o contexto de um povo, somos treinados em missões transculturais. O missionário transcultural é treinado para ir para um povo e ser um no meio daquele povo. Ser igual a eles, para conseguir comunicar o Evangelho. E no meio disso tudo claro, há barreiras, choques culturais, mas no meio disto tudo nós usamos a cultura do Reino. A cultura do Reino de Deus é superior a todas as culturas. Nós nos revemos todos na cultura do Reino ou seja, o que prevalece no final, não é nem a minha, nem a cultura do povo que vou alcançar, mas é a cultura do Reino de Deus que precisa chegar a todos.

É lamentável, hoje há um número de jovens que não falam as línguas nacionais. É triste porque fazem parte da nossa identidade cultural, aquilo que somos. Temos trabalhado com estudiosos de línguas no sentido trazer jovens a se focarem mais no estudo das línguas nacionais.

Que apelo deixa para os líderes, para os jovens…

Para os líderes é o seguinte: sigam Jesus. Jesus treinou e emancipou. Primeiro disse vinde a mim vós que estais cansados e Ele trabalhou na abordagem de treinamento, discípulou, mas disse Ide e coisas maiores que as que eu fiz farão. Os apresentou a Deus e os emacipou. 
Nós precisamos de líderes, cito um autor, Marcos de Sousa Borges, que por acaso é da JOCUM, diz que o sucesso de um grande líder não está na quantidade de líderes que tem debaixo das suas asas, mas na quantidade de pessoas que ele já treinou e emacipou para cumprir os propósitos de Deus.

Para os jovens, aconselho sabedoria porque muitas vezes, temos intenções boas mas não usamos com sabedoria e aquilo que seria um diálogo com a nossa liderança, se torna uma afronta porque desrespeitamos os nossos líderes. Não vamos por aí, vamos ser como Natan, que quando foi ter com o rei Davi usou de sabedoria para manifestar aquilo que era o seu desejo para que o rei compreendesse. Precisamos ser jovens sábios, falar no momento certo, na hora certa, palavras certas e sobre tudo respeitar os mais velhos. A Igreja precisa de todos e não só os jovens, não só o mais velho. Todos juntos.

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Gil Lucamba

Jornalista, Fundador e administrador do portal de notícias Arautos da Fé.

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