“Continuarei a defender que a mensagem do Evangelho não poderia ser vendida”

A muito que defende que a música gospel não deve ser vendida. Seus posicionamentos têm provocado acesos debates e até “alergias” a pessoas pouco preparadas para lidarem com o contraditório.
Participou na criação de vários espaços de promoção da música gospel (ao vivo), dissocia-se de qualquer iniciativa cristã com fins lucrativos. Há cerca de 4 anos, fundou em Viana, Luanda, o Aprazível, espaço que promove música gospel ao vivo.
Para uns é Michel Mwanza e para outros Israel Aprazível. O artista, acedeu ao pedido do portal Arautos da Fé e numa conversa de aproximadamente 30 minutos, conduzida por Gil Lucamba, radiografou o estado da música gospel e sem titubear explicou o que é adoração e o que é louvor, e aos músicos aconselhou a se deixarem inspirar e a não dependerem dos estilos “que nos levam a se expressar mais na carne do que no espírito”.

 

Israel Aprazível

Israel Aprazível. (Foto: Jaime Chiquito)

Arautos da Fé: Qual é o balanço que faz do trabalho do Aprazível?
Israel Aprazível: Até agora, o balanço que fazemos de todo trabalho que vimos realizando, é que só estamos a descobrir o trabalho a fazer. Cada dia que passa, aprendemos e descobrimos alguma coisa do que é o trabalho para o desenvolvimento da música gospel.

À medida que trabalhamos descobrimos que, de facto, somos muitos músicos, mas a música ainda não atingiu os patamares que queremos. Embora alguns já tendem a falar em desenvolvimento da música gospel, eu continuo a insistir, que ainda é de forma tímida. Vejo que cresce o número de fazedores da música evangélica, mas ainda é diminuto o número de consumidores.

AF: Qual é a visão do Aprazível para reverter essa situação?
IA: A princípio já descobrimos que o passo a seguir é levar a música, por exemplo nas praças, ao encontro do consumidor. Descobrimos também que o consumidor tem uma mentalidade sobre música gospel e continua a pensar até hoje que a música gospel é aquela música para cerimônias fúnebres. E alguns continuam a pensar que a música gospel, até agora não tem a qualidade desejada. Embora hoje, já conseguimos notar que temos algum crescimento em termos de qualidade.

Qual é o nosso propósito, qual é a nossa visão? Pegar a música ao vivo e levar ao encontro dele (consumidor) e no sentido de lhe obrigar a ouvir a qualidade da música que fazemos, de maneiras a criar nele o gosto pela música, de formas a que ele chegue ao ponto de ansiar a música gospel, quer ouça que haverá concerto ou não. Então, a nossa visão é continuar a levar a música nas ruas.

AF: Quais são os projectos do Aprazível para este ano?
IA: Para este ano 2018, como temos no nosso slogan: Aprazível, o espaço da arte no gospel. Ao Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, honra, glória, poder, força e louvor. A nós, graça. A arte, boa tarde, boa noite, (conforme o período). E a plateia mais Aprazível de Viana, de Luanda, de Angola, de África e do mundo, merece palmas. Então, essa plateia começou em Viana, vai se estender por Luanda, Angola, África e mundo.
Isso é para dizer que, para este ano, o nosso propósito é levar o Aprazível em pelo menos três províncias de Angola.

Nos finais do ano passado começamos com o Huambo, onde queríamos realizar o festival Aprazível ainda em Dezembro. Por falta de alguma documentação que não tínhamos concluído, fomos obrigados a transferir o festival que vai marcar a chegada do Aprazível no Huambo. Alteramos para o próximo mês de Março. Acredito que até lá, se Deus fizer graça, vamos anunciar pelo portal e se tudo tiver sido criado, poderemos estar juntos e testemunhar a chegada do Aprazível no Huambo.

AF: Do que viu no Huambo, que balanço pode fazer do estado da música gospel?
IA: Três situações que aconteceram, me mostraram que o estado da música gospel no Huambo é o mesmo da música gospel em Angola. A música gospel também não tem o número de consumidores desejado. Testemunhei a venda e sessão de autógrafos de três músicos no Jardim da Cultura e não houve aderência.
Quando falo da música gospel, quero olhar para o seu desenvolvimento e falar do desenvolvimento é olhar para o consumo. Olhar para o consumo, é dizer que no Huambo a música gospel não é consumida como gostaríamos que fosse.

AF: O que está a faltar para a música gospel ser mais consumida?
IS: Como disse no princípio, o povo tem uma mentalidade a respeito da música. Eu gostaria de passar a minha mensagem aos músicos: o segredo não está em vender discos, fora disso. Porque hoje quem vende discos é quem já tem nome. Não vou citar nomes. E quem não tem nome, por mais qualidade que tenha, não vende discos.

Para conseguirmos vencer de uma vez tudo isso, os músicos devem juntar-se, envolver-se com projectos do género, falo do Aprazível, Praise Art, Adorarte, Lugar de Adoração e outros espaços que tem estado a aparecer para oferecer música ao povo. Que os músicos participem destes espaços porque é ali onde a sua qualidade vai ser conhecida.

Precisamos atrair as pessoas para ouvirem a música gospel. Para isso é necessário que os músicos se envolvam nesses projectos e criarmos mais projectos para levar a música gospel à sociedade, lá onde o povo está, na rua onde ele não quer sair. Então nós vamos lá com uma guitarra, com uma coluna para tocarmos a música gospel. Acredito que se ele gostar disso, quando lhe dermos o nosso endereço, ele vai aparecer porque ouviu uma música de qualidade na rua, de um projecto que sabe, o objetivo é levar a música ao encontro dele, mesmo crendo ou não.

O segredo é levarmos a música lá fora. Como os músicos irão se não tiverem mudada a mentalidade de que a música tem que ser vendida? Pode ser vendida, mas se for vendida sem preparar o mercado, então, é aquilo que se diz: Rocha.

Me lembro de uma passagem que o meu amigo poeta Ancoje, tem utilizado muito. “Deus o Pai, levou muitos, mas muitos séculos, a profetizar, a anunciar a vinda do Senhor Jesus Cristo. Quando ele apareceu, já muitos estavam à espera porque tinha sido anunciado.” Da mesma forma, devemos anunciar a música aqueles que estão de fora. Anunciar a música é a mesma coisa que anunciar o Evangelho.

AF: Os espaços que temos não são suficientes para ajudar a desenvolver a música como defende?
IA: Eu diria que não são suficientes, mas também poderia dizer que são suficientes. A dinâmica é que vai definir se os espaços são ou não suficientes. Por exemplo, se o Aprazível se cingir apenas em Luanda e no Huambo, as pessoas vão levar muito tempo para ouvir e conhecer o Aprazível ou para terem o contacto com o Aprazível.

O Aprazível já criou a dinâmica de ir ao encontro da sociedade, agora resta ao Aprazível ser firme e constante. E se os outros projectos forem dinâmicos, levarem também a música no seio da sociedade, aí sim, poderemos dizer que os espaços são suficientes.

Se os espaços que existem não tiverem esta dinâmica, cingirem-se apenas aos seus recintos, então vamos dizer que os espaços não são suficientes. 

De Viana para o Huambo e depois para outras província. Israel deseja contribuir para o desenvolvimento da música gospel. (Foto: Jaime Chiquito)

De Viana para o Huambo e depois para outras província. Israel deseja contribuir para o desenvolvimento da música gospel. (Foto: Jaime Chiquito)

AF: Como é que vê a qualidade das composições?
IS: Começando da composição melódica, hoje já podemos notar alguma beleza nas composições e alguma maturidade. Na mensagem é que ainda encontramos alguma debilidade. Tenho dito nas minhas intervenções que louvor não é música, adoração não é música, adoração são palavras. Exemplo, olhando para uma mulher e me apaixonando por ela, querendo atrair a atenção dessa mulher, terei de dizer as palavras adequadas ao momento. Pode-se dar o caso de pegar nessas palavras e cantar. Poderei chamar a isso música de conquista, música de elogios.

Com o louvor é a mesma coisa. Olho para Deus e penso: quem é Deus? Depois a resposta vem. Olho novamente e pergunto quem é Deus para mim? E a resposta vem.

As resposta às minhas questões, suscitam dentro de mim várias situações. Pode suscitar apenas um sentimento ou para além de sentimentos algumas palavras. Aquelas palavras dirigidas à Deus, vão definir se são palavras de louvor ou de adoração.

Então, adoração são palavras inspiradas pela nossa experiência com Deus, nossa comunhão com Deus, pela bondade de Deus.

Eu sou daqueles que continua a pensar que louvor não é uma coisa que vem do nosso intelecto, da nossa mente. O louvor vem da alma, vem do encontro com o nosso Senhor Jesus Cristo. Depois de nos encontrarmos com Ele, alguma coisa temos que dizer.

Muitos disseram, depois do Senhor Jesus Cristo levantar as mãos para a tempestade parar, “verdadeiramente tu és o filho de Deus”. E a Palavra diz que eles o adoraram dizendo: “verdadeiramente tu és o filho de Deus”. O que é que suscitou aquilo? A experiência que tiverem com o Senhor.

Maria quando recebeu a mensagem que haveria de receber o Cristo, o Salvador, dentro dela nasceram palavras de louvor. Esta lá registado em Lucas 2. Isabel, a mesma coisa. A profetiza Ana, a mesma coisa. Foi o contacto que tiveram com Deus que suscitou neles palavras e aquelas palavras, uma está o cântico de Maria, outra o cântico de Isabel, assim sucessivamente. Quer dizer que não foi simplesmente porque eles pensaram e falaram. Não! Aquilo não foi pensamento, foi inspiração porque eles tiveram uma experiência viva com Deus. 

AF: Como olha para os novos estilos musicais no segmento gospel?
IA: Se eu pegar a minha guitarra e tentar tocar a alguma coisa, os profissionais de música vão enquadrar em algum estilo já existente. Mas no entanto, o estilo para o louvor, também é inspiração e não imitação. Eu gosto do reggae e já alguém perguntou: da tua boca só sai reggae? Mas há aqueles casos que vem uma melodia e vejo que é inédita. Então é inspiração.

Até os estilos para cantarmos o louvor, são inspiração. Por exemplo, eu não sabia que zouk significa festa. A palavra zouk é uma palavra francesa que significa festa. Ouvi num programa de rádio que falava do mundial de luta contra o álcool e a jornalista dizia que o álcool é mais usado em festas e depois mandou o Dj tocar uma música do mar das Antilhas. Eu pensei: zouk significa festa? Ok. Que tal pensarmos que todos os estilos significam alguma coisa, que tal pensarmos que o reggae por exemplo significasse choro, que o slow abraço… Em Angola temos os nosso estilos. Temos o semba. O que significa semba? Dizem que é um termo em kimbundu que significa massemba, muitos sembas.

Semba é o choque propositado entre a cintura de um homem com a de uma mulher. Qual era o propósito desses massembas? Massemba, podemos encontrar como um estilo de dança de carnaval. É uma questão de inspiração carnal. Se investigarmos outros estilos, vamos descobrir que cada estilo tem o seu próprio significado. Pode não ser verbal, pode ser um significado cultural, tradicional. Se cantar sem conhecimento de que isso significa alguma coisa carnal, a minha canção seria aceite por Deus?
Aos músicos fazedores da música evangélica, da música de louvor e adoração à Deus, que se deixassem inspirar, que não dependessem de imitação, mas de inspiração nos estilos. Se nos deixarmos inspirar e não dependermos dos estilos que nos levam a se expressar mais na carne do que no espírito, como por exemplo o kuduro. Hoje, estamos a herdar o seben. O seben tem um impacto que se nos distrairmos no espírito a tendência é nos expressarmos na carne. Passaremos a dançar de forma carnal e até sensual.

AF: Qual é o seu desejo para 2018?
IA: Desde 2009 que o meu desejo é participar activamente no desenvolvimento da música gospel angolana. Participar de todos os projectos que visam o desenvolvimento a ponto da música gospel angolana ser consumida em Angola e não só. Que a música gospel seja desejada em todos os lugares como é desejada a música secular. Embora não seja muito a favor do comércio da música, mas que a música seja consumida a ponto de que quando se ouvir que um músico gospel vai lançar um disco, só de saberem que é música gospel, não importando quem é o cantor, todo mundo já está lá à espera. Esse é meu desejo.

AF: Considera que há músicos comerciais, estes com as suas músicas podem evangelizar?
IA: Me lembro que apóstolo Paulo, quando estava preso, conta isso no livro de Gálatas, dizia que muitos pregam por inveja, outros para aumentar a sua prisão, outros por N motivos, e havia também os que pregavam com a motivação certa. E ele disse, contanto que isso seja pregado tanto por inveja, tanto por vanglória, o importante é que Cristo seja pregado.

Quanto aos músicos comerciantes da música gospel, desde que vá a palavra no meio disso, se comercializam ou deixam de comercializar, o importante para nós é que alguém seja atingido por essa mensagem e alguém seja salvo por essa mensagem.

Eu defendo e continuarei a defender que a mensagem do Evangelho não poderia ser vendida de nenhuma forma. Uns perguntam: então as Bíblias são vendidas porque? Ok. Quando tivermos no céu pergunte isso à Deus. Se Deus puder te responder está ok, se não puder também não sou a pessoa certa para responder. Mas a verdade é que, como ele diz em Mateus 10:8, eis que Eu vos dou poder, pregai, curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos. De graça recebeste, de graça dai. Aí o Senhor estava a dizer, assim como recebestes o Evangelho sem pagar, assim também ministrem o Evangelho, ministrem o poder, sem cobrar.

O quê que o músico pagou ao Senhor Jesus Cristo para ser músico? O que pagou para ter o conhecimento da Palavra? O quê que o pregador pagou ao Senhor Jesus Cristo para ser pregador? Absolutamente nada. Então, porquê que ele vende a Palavra? Se o Senhor disse: assim como recebeu sem pagar, assim dá sem cobrar. O que é que ele cobra? Cobra o seu esforço? Logo, podemos concluir que ele trabalha para a sua glória e não para a glória de Deus. Desculpe que diga assim de forma dura, mas é a conclusão a que posso chegar. 

Nós somos obreiros e quem nos assalaria é o Senhor Jesus Cristo. E ele não definiu o salário que alguém poderá ter, para além da vida eterna. Não estipulou salário, também não estipulou o salário por hierarquias. Não.

Ele simplesmente tem a coroa da vida para nós. Mas nós, no meio de tudo isso, decidimos fazer nós mesmos o nosso salário. E alguns dizem: digno é o obreiro do seu salário. Ok. Qual obreiro? Trabalha para quem? Qual salário? Aí estão as questões.

Aos músicos, os comerciantes, que comercializem se já começaram a comercializar. Há uma passagem que o Senhor disse: aquele que está sujo, suje-se ainda. Aquele que está limpo, limpe-se ainda. Aquele que é puro, purifique-se ainda. Quer dizer que chegará um tempo, em que no puro, já não haverá espaço para ele ser impuro novamente. No impuro, já não haverá espaço para ele ser puro. No injusto, já não haverá espaço para ele ser justo. Porque, a Palavra flui e cada um que a houve, deixa-me dizer isso, desculpa que diga isso, a Palavra de Deus não é para todos, é para aqueles a quem o espírito foi enviado. Muitos ouviram quando o Senhor Jesus Cristo pregava, muitos ouviram. Mas simplesmente 12 ficaram com Ele até ao fim, mas foram 120 que ficaram depois dele ter partido.

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Gil Lucamba

Jornalista, Gestor de Mídias Sociais. Fundador do portal de notícias Arautos da Fé.

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