Não se perde o que não se tem

Um senhor de uma aldeia distante, aportou o centro de uma cidade onde tinha parentes. Por serem cristãos, na mesma semana o levaram à Igreja onde foi convidado a falar sobre a sua aldeia.

Emocionado com o ambiente que estava a viver, explicou que na sua aldeia não havia uma única igreja. Os habitantes eram maioritariamente camponeses, caçadores e comerciantes. 

Havia no centro da aldeia, um jango onde as pessoas se reuniam, quase todos as noites, para comer, beber e dançar.

Por causa das relações promíscuas, nem mesmo as mulheres, por vezes, sabiam quem eram os pais dos seus filhos. Até os homens nem se importavam com quem saíam as suas esposas. Preocupavam-se sim, com o que estas traziam.

A promiscuidade era tanta, que algumas mulheres chegavam a se deitar com os próprios enteados.

A aldeia tinha sido fundada por um pequeno grupo de caçadores, escorraçados de outra aldeia por desentendem-se com o soba.

Enquanto o senhor contava, a emoção tomou conta dos membros da Igreja. Uns choravam, outros diziam é Sodoma, outros, Gomorra. Outros ainda, é o sinal dos últimos tempos.

Terminou a sua exposição agradecendo o acolhimento da família e da Igreja. Disse que não tencionava regressar à aldeia.

O culto continuou e no final, um dos dirigintes pediu uma reunião com o Pastor. Tratava-se do mais experiente evangelista que a igreja tinha. Era também um exímio cantor, por isso, o Pastor não teve dificuldades em anuir a sua solicitação para que a Igreja financiasse uma visita missionária.

No culto seguinte, o Pastor apresentou à congregação a ideia da viagem missionária e pediu apoios. A resposta foi além do esperado.

Uma semana depois, o evangelista pós-se a caminho, com o firme propósito de levar a Palavra àquela inóspita aldeia. Demorou dias para chegar ao local. Pela distância, teve de pernoitar algumas vezes noutras aldeias.

Quando chegou, foi recebido com certa desconfiança e levado ao homem mais influente da aldeia, que era quase um soba.

Explicou as razões da sua visita e como foi possível chegar aquele local.

Apesar da desconfiança que ainda pairava, foi-lhe arranjado um lugar para repousar, mas sob forte vigilância.

No dia seguinte, antes do raiar do sol, foi chamado as pressas, pois era costume os homens saírem cedo para o campo ou para caça. Outros, para aldeias vizinhas em busca de produtos.

Meses passaram, a expectativa da Igreja só aumentava. Certo dia, preocupado pela falta de notícias do seu evangelista, o Pastor convocou alguns irmãos para analisar a situação. Ficou decido que uma comissão iria à aldeia para saber o que se terá passado com o evangelista.

Passaram-se os dias, até que finalmente a comissão chegou na aldeia. O sol já se preparava para dormir, quando avistaram o primeiro morador que os levou ao jango onde foram recebidos pelo “chefe” da aldeia.

Surpresa do grupo, foi ver o evangelista sendo apresentado como chefe da aldeia. Por instantes o grupo respirou de alívio, pois pensará que o evangelista havia cumprido a sua missão.

Não demorou para que a realidade viesse à tona. O evangelista tinha se convertido aos princípios da aldeia. Também levava uma vida completamente depravada.

Choveram perguntas, seus irmãos na fé não compreendiam como foi que um homem da Palavra havia perdido em tão pouco tempo os valores.

No regresso, o grupo partilhou com o Pastor o que havia sucedido. Atónito, o Pastor também passou dias procurando respostas, até que entendeu partilhar com a congregação o triste acontecimento.

Ninguém queria acreditar, quase todos atribuíram à satanás a responsabilidade do que aconteceu.

Enquanto murmuravam, no meio da congregação levantou-se um ancião e fez-se silêncio. Disse que a atitude do evangelista era reflexo da cultura mercantilista que tomou conta da Igreja, que faz do culto um show para atrair multidões e ganhar dinheiro; Que entretém mas não transforma.

Muitos aqui na congregação, continuou, são como aquele evangelista e precisam saber.

O ancião foi interrompido com apupos de pessoas que acharam que as suas palavras eram ofensivas.

Baseada numa experiência verídica, essa história nos leva a reflectir no Evangelho que é ensinado hoje em muitas denominações, que coloca adornos em volta do coração das pessoas ao invés de transforma-los.

Comentários

comentários

Gil Lucamba

Jornalista, Consultor/Gestor de Mídias Sociais. Fundador do portal de notícias Arautos da Fé.

Mais Artigos - Website

Adicionar comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


Inscreva-se para receber as novidades por email

* campos obrigatórios