Milagres ou encenações teatrais?

“Venham ouvir esta menina que ressuscitou e traz consigo uma mensagem p’ra você que ainda não aceitou a Cristo. Venham ouvir”. fe

A cena decorre no Kassenda e o pregador percorre algumas ruas do Bairro em companhia de uma menina que teria partido deste mundo e regressado do Além para júbilo dos membros de uma congregação religiosa, que em uníssono louvam o Senhor por ter feito mais um milagre: “o Deus que no passado ressuscitou pessoas continua a operar milagres no presente. Eis aqui a prova”.

Convencer os moradores do Bairro da operacionalidade da fé, dos seus efeitos, e trazê-los ao rebanho são os objectivos prosseguidos com o apelo dirigido aos descrentes que levam uma vida mundana. 

– “Você precisar acreditar, cara. Tem que ter fé”.

A omissão do nome da confissão religiosa é irrelevante. Interessa apenas o apuramento dos factos que davam conta do prolongado jejum feito pelos membros da congregação religiosa que envolveu a menina de 10 anos. 

Incapaz de suportar este exercício espiritual durante largos dias, e já debilitada, a criatura não resistiu a privação de alimentos e acabou por desmaiar.

Do desmaio derivou a historieta à volta do “arrebatamento” e o mito sobre a “ressurreição”. Acreditar em qualquer uma destas narrativas é uma decisão tão pessoal quanto a desgraça e a felicidade que encontramos ou construímos nesta vida. 

Pela televisão e pela rádio ouvem-se incontáveis testemunhos de milagres. O programa está em directo, e, no meio da multidão de crentes ansiosos em testemunhar a “maravilha” encontra-se uma jovem.

Com o microfone à sua disposição, o relato começa: “a minha vida era muito difícil, inclusive não conseguia ter filhos. Foi nesta Igreja que eu encontrei o milagre e hoje tenho o meu filho”.

Passados alguns meses, dá-se, numa das ruas de Luanda, um encontro ocasional entre a jovem e alguns membros da antiga Igreja que ela frequentou antes de se ter tornado membro da Igreja onde diz ter encontrado o milagre.

Feitas as habituais saudações, acompanhado pelo tradicional questionamento sobre como vai a vida, os antigos irmãos espirituais aproveitam o momento para repor a verdade da história: “Você engravidou e deu a luz aos seus filhos quando, juntamente o seu esposo, estavas a frequentar a «nossa» Igreja. Que motivo te levou a dizer aquilo pela televisão?”

O cenário, concebido por lideranças eclesiásticas, envolve as ovelhas do rebanho que juntamente o pastor prosseguem objectivos pessoais: (1) atrair os ouvintes, telespectadores e leitores para os locais de culto e integrá-los no rebanho para que sejam tutelados e conduzidos (como se fossem crianças) pelo «profeta» e; (2) desfrutar de um “minuto de fama” durante a apresentação do testemunho difundido pela comunicação social (rádio, televisão, jornais e revistas).

Os bastidores da montagem, produção, realização e transmissão do espectáculo estão cobertos de trevas. Por vezes, forjam-se e ornamentam-se testemunhos colocados na boca dos crentes, outras vezes, pagam-se valores monetários para que o testemunho seja apresentado. “Se eu falar, que recompensa vou receber, ou quanto terei de pagar?”
Enquanto isso, um jovem que, por recomendação médica usava óculos, participa de um “Culto de Libertação” cujos organizadores justificam a sua celebração com o argumento de que os males que atormentam os crentes têm de ser expulsos.

A dado momento do culto, o «profeta» apela aos fiéis que tivessem algum problema para que saíssem dos seus assentos e se aproximassem do altar. “A cura chegou para ti. Acredite!”.

O jovem responde ao apelo. Durante alguns segundos, instala-se no seu interior a sensação de que as cordas que pareciam prendê-lo ao longo da sua vida estavam sendo destruídas; os óculos saltam misteriosamente do seu rosto e há a convicção de que doravante não há motivos para continuar a usá-los.

– “A cura chegou para mim”.

Passa-se uma semana e os sintomas antigos regressam em peso. A necessidade de usar óculos impõe-se a todo o instante e o jovem não hesita em utilizá-los novamente.

O que teria acontecido durante o momento em que o jovem esteve diante do altar enquanto o «profeta» punha as mãos sobre si? Considerando o problema que persiste na tua vida, tu, caro leitor, depositarias a tua fé na efectivação do milagre?

Seja qual for a resposta, o certo é que a entrada de novas ovelhas no rebanho decorre da aceitação da mensagem do «pastor», «apóstolo», «profeta» ou «evangelista» em tempo de crise (conjugal, financeira, etc.) e os testemunhos continuam a ser veiculados no espaço mediático alugado pelos apologistas da Teologia da Libertação e os mensageiros da fé.

Uma fé voltada para a conquista dos bens materiais, focada na rápida transformação da pobreza em riqueza, da doença em saúde, do desconhecido em figura pública, da esterilidade em procriação. Inúmeros são os milagres e a lista parece não ter fim.

Estas promessas são realizáveis? Paradoxalmente, a ineficácia da promessa milagrosa é justificada pela falta, ou pela fraqueza, da fé e muitas são as ovelhas que, frustradas e decepcionadas, abandonaram o rebanho.

O espectáculo teatral, envolto de sincretismo, é abrilhantado, particularmente, por indivíduos semi-analfabetos, porém, dotados do poder de iludir e manipular multidões de iletrados aos quais se juntam letrados e abastados.
Está-se diante de um fenómeno instalado, que propagou-se e consolidou-se durante um longo período, extensivo aos nossos dias, em que o discurso oficial, tendencialmente imutável, centrou-se e continua centrado no respeito da fé (do cidadão) pelo Estado (Laico), na não «ingerência» deste nos assuntos internos das Igrejas e (o que é curioso) na parceria entre estas e o Executivo.

Mas, será que alguns membros deste aliaram-se aos promotores e organizadores do referido espectáculo? Se a resposta for negativa, o que dizer então do discurso político-eleitoral em locais supostamente consagrados ao culto e a pregação da Palavra?

A confluência de interesses é uma hipótese sustentada pelos factos político-religiosos (financiamento camuflado da construção de alguns templos, declarações favoráveis ao poder político, etc.) e as partes envolvidas estarão sorrateiramente empenhadas com a materialização dos seus objectivos.

Nos quintais de casas localizadas nos bairros suburbanos e periféricos, a celebração de cultos é uma constante e para desespero da vizinhança, particularmente dos hipertensos, a ordem e a tranquilidade são permanentemente perturbadas pela gritaria de um coro fervoroso que, além do melodioso “Aleluia”, suaviza os tímpanos com o agradável “Amém!”

João Ngola Trindade, em Jornal OPaís

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