Deolinda Dorcas Teca

Deolinda Teca

Nascida no seio de uma família cristã evangélica, aos 13 de Abril de 1964, a 24 anos é ministra do Evangelho, pela Igreja Evangélica Reformada de Angola (IERA).

Simpática e dona de uma fé firme, a pastora tem o seu nome inscrito nos anais da história da igreja angolana, foi a primeira a ser ordenada na Igreja Evangélica Reformada de Angola, numa altura em que o conservadorismo reinante, não aceitava ordenar mulheres.

De sua graça, Deolinda Dorcas Zola da Graça Paulo Teca, é neta de um pastor e filha de um evangelista da IERA. A sua avó paterna, teve uma base catequética, que a possibilitaria ser evangelista ou pastora, não fosse a influencia da cultura discriminatória reinante na altura, que relegava o papel da mulher na sociedade.

O Chamado

Sonhava ser enfermeira, desejo que nasceu do facto de o seu pai ser enfermeiro e ter crescido acompanhando-o nas actividades ligadas a sua profissão.

Foi praticamente na mesma semana em que o seu pai lhe informou de que a igreja precisava enviar alguns jovens para o Seminário Emanuel Unido, para estudarem teologia.

“Eu disse ao meu pai, muito bem, obrigada por está informação, mas dá-me só pelo menos uma semana para pensar e depois repondo. Nem fiz 5 dias, no terceiro disse a ele, podes dar o meu nome vou fazer esta formação.”

Mais alguns anos antes, alguém já predisse o que a menina Deolinda, seria uma pastora. Foi o missionário da Igreja Evangélica Reformada, quando regressou ao país em 1974, (depois de ter sido expulso  1971 pela autoridade colonial) e foi directamente para a Missão do Kikaia.

“Tenho isto na mente, tenho isto no espírito. Porque a partir daquela data, depois que a minha chará apresentou-me a ele, eu tinha na altura 10 anos, dizendo está é a filha do Paulo, (meu pai que foi também estudante do missionário na Missão), ele pegou-me na cabeça e disse a tua chará estudou aqui na missão, um dia você também vai ser pastora.”

Em 1982, quando a igreja fez o apelo as Paróquias, pedindo jovens para irem ao Huambo estudar teologia, a jovem Deolinda Dorcas, nem entendia o que isso significava. “Recordo-me deste sinal. Mas… pastora? o que é isso? Na igreja não há. Vejo pastores, catequistas e evangelistas. Pastora isso não existe!  Ainda como criança, já tinha espírito critico. Fui para lá, sem saber o que seria, mas sem indignação, sem desconfiança com uma certa firmeza de que poderia fazer a formação pastoral e não era tão fácil naquela altura, porque a guerra fazia-se sentir muito no sul do país. Já viu o que é, deixar o Uíge e ir até o Huambo? Claro, mas nós fomos. Quando Deus chama, Deus capacita, protege e assim fomos.”

“Fui para o Huambo e estudei com um certo animo e esperança de trabalhar um dia para a igreja. Mas antes de ir para o Huambo, eu cantava no grupo coral, fui dirigente do grupo coral A Luz do Mundo. Até hoje este grupo existe, na cidade do Uíge, no Kandombe Velho, em breve, eles farão o lançamento de um DVD, já recebi o convite para lá ir. Fui sempre amiga da igreja, comecei a cantar muito cedo, antes dos 10 anos já cantava e posso dizer que este é um dos dons que Deus me deu. Sempre gostei de cantar e mesmo quando estávamos no seminário, tínhamos um pequeno grupo coral. A pastora Eva das Dores, o Afonso Teca que é o meu esposo, o pastor Daniel, o Viegas, a pastora Teresa Valenga Gerente e algumas vezes a pastora Liliana, a pastora Deolinda Saculanda, o Armando Kossi que deixou o ministério pastoral e agora está ligado a cultura em França, agora não recordo de outros, cantávamos nos Peregrinos, no Académico… “

“E como realmente senti o chamado? Sabe Deus como é que chamou-me para este ministério!”

A formação

Fez os estudos primários até o secundário na província do Uíge. Depois partiu para o Huambo, onde estudou teologia no  Seminário Emanuel Unido (SEU), 1982 – 1984. Ainda no Huambo, iniciou o curso de Ciências Biológicas, que veio a concluir no PUNIV da província do Uíge.

Pelo brilhantismo que demonstrou, a direção do SEU, convidou-a para leccionar as disciplinas de Educação Cristã, Homilética e liturgia,  o que fez com dedicação durante três anos (1989-1991). Muitos dos seus colegas hoje, foram seus alunos no SEU. É o caso dos pastores Azevedo, Salomão, Ndunduma, Manuel, as pastoras Ana, Urraca (esses da IECA) e Tito Mussolovela da Igreja Metodista, só para citar alguns.

“Tenho ricas recordações dos meus momentos como estudante do seminário Emanuel. Tenho em mente a rigorosidade do Reverendo Augusto Chipesse, que considero um pedagogo e psicólogo. Ajudou-me a recuperar a auto-estima  em alguns momentos. Também está a amiga e mãe Pastora Adelaide Catanha e o falecido Reverendo Justino Sachilombo.  Em termos de professores tenho a imagem da Reverenda Ilda Valério, dos Reverendo Augusto Chipesse, Reverendo Júlio Francisco, Luís da igreja Metodista. São alguns que marcaram a minha vida estudantil e grande parte deles são da Igreja Evangélica Congregacional. De maneiras que o que realmente bebi do seminário Emanuel, como estudante e depois dando o meu contributo na formação, ofereceu-me uma imagem de ser congregacional. Por isso é que muita gente pensa que sou Pastora da Igreja Congregacional.”

Em 1992, ela e o esposo, partiram para a RDC, onde licenciaram-se em teologia. Apesar das dificuldades, sobretudo no primeiro ano, porque tinham pouco conhecimento da língua francesa, em 1997 concluíram o curso de teologia com distinção. Ainda neste período, a pastora estudou também pedagogia.

“O que foi realmente honroso, tanto para nós, como para os professores. Éramos praticamente os únicos estrangeiros angolanos na Universidade Protestante do Congo. Tivemos um certo carinho dos nosso professores e também dos colegas. Hoje em dia, quando nos encontramos, muitos a viverem em Angola e outros em conferências internacionais, não imagina, é muita alegria.”

Em 1997, o casal regressou a Angola e em 1999, Deolinda Teca, começou a trabalhar para o Conselho de Igrejas Cristãs em Angola (CICA), no Departamento de Justiça, Evangelismo, Reconciliação e Cooperação. Em 2007 assumiu a responsabilidade de dirigiu a Iniciativa Ecuménica de Luta Contra o HIV-Sida em África (EHAIA), um programa do Conselho Mundial de Igrejas de luta contra o VIH. Mandato que terminou em 2 de Março de 2013, altura em que foi escolhida para dirigir o CICA.

“Foram também momentos ímpares, conheci um pouco mais a problemática do VIH e também trabalhei com as pessoas seropositivas, pessoas afectadas e infectadas pelo VIH. Não foi tão fácil olhar para a recuperação da autoestima, para a discriminação. Muita gente descriminou ou tem estado a descriminar as pessoas, porque a concepção primaria foi que o VIH, era um assunto imoral, quer dizer algo que estava ligado a imoralidade, ao sexo, quando não é. Naquela altura exerci um ministério muito ligado a pessoa humana.”

O casamento

Foi no SEU que conheceu Afonso Teca, o jovem com quem contraiu santo o matrimónio em 1988. Do enlace, nasceram dois rapazes e uma menina.

“Conheci-lhe lá, já no seu penúltimo ano. Foi quando pediu a minha mão e associe-me ao pensamento dele, mas com uma certa resistência, porque não era este o objectivo que me levou ao seminário. Eu dizia que o objectivo era estudar, mas felizmente aconteceu e considero-me feliz por esta ligação que tenho com ele.”

Ordenação

A sua ordenação não foi muito pacifica, mas aconteceu aos 25 de Agosto de 1990.

“A igreja achou por bem, ordenar-me como pastora e posso dizer que sou a primeira mulher a ser ordenada na Igreja Evangélica Reformada. E quando fui para o Congo Democrático, também houve uma certa discussão se ordenavam ou não mulheres, mas por fim os Reverendos Malungo António Pedro e Manuel da Conceição, como já faziam parte de alguns encontros internacionais e viram que era normal termos pastoras e também com está cooperação com a Igreja Evangélica Congregacional, e a Igreja Metodista que também já tinham pastoras, estes souberam defender a ordenação na Igreja Evangélica Reformada e a luz da própria bíblia.”

Mais de duas décadas testemunhado a graça de Cristo e vencendo barreiras

Ao longo dos de quase 25 anos de trabalho como ministra do Evangelho, a pastora Deolinda, testemunhou a graça de Cristo, mas nem tudo foi bom no seu ministério. Enfrentou o preconceito, que ainda graça em alguns lugares, de que a mulher não pode liderar.

“Tenho a destacar que Conselho de Igrejas Cristãs é uma universidade. O viver unidos na diferença, ajudou-me a compreender a dinâmica da igrejas em Angola e não só. Agora estando nesta posição consigo compreender a dinâmica das igrejas membros e das igrejas não membros, e a relação igreja estado. Não deixa de ser uma graça, ou dom. Precisamos celebrar isto. Porque algumas igrejas não conseguem ordenar mulheres, quem sabe a nossa posição como Secretária Geral do CICA, possa ser o caminho ou uma abertura para que outras mulheres também assumam responsabilidades nas igrejas.”

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